quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Vai para dentro

  


 Sentada nos fundos da casa, observo o pequeno jardim que a minha frente se estende. Um pequeno canal divisa o jardim da rua, onde apenas os carros transitam. As frondosas e altas árvores que seguem após a rua, escondem as altas construções de apartamentos. A minha privacidade é única!

 Sem embotar minha visão, permaneço sentada por horas a fio, perdida em pensamentos inquietos sobre o que deveria estar fazendo. Enveredo pelas palestras do Marlon Reikdal, que me convida, de forma autoritária, a um Vai para Dentro. E nesta busca de ir para dentro e me conhecer, vou me assustando com minhas próprias mazelas, que ele teima em chamar de simplesmente Natureza Humana.

 As flores multicoloridas que se esparramam no tapete verde, circulam o laguinho, onde pequenos barbos rosados nadam entre as folhagens dos lírios d'água. E eu continuo na minha inquietação diária. Me questiono se não trai minha missão de vida. Muitos afirmam que se ouvíssemos mais atentamente nosso Eu interno, seríamos mais sábios e felizes; mas o burburinho constante da vida, da rotina, do afã do ter nos prejudica. E, agora, com esta pandemia, nos sentimos obrigados a parar. E quantos ainda se ressentem deste “parar”. O silêncio começa a incomodar… Não é fácil ir para dentro. Exige coragem! 

Observo o vento balançando os galhos das árvores e este movimento repercute em minha mente. Pensamentos que vão e vem… Uma doçura imensa de gratidão me invade o coração quando penso nos filhos e netos, na profissão que exerci, na vida que construí. Posso não ter feito tudo que deveria, mas, com certeza, fiz o melhor que consegui fazer. Uma amiga me liga e desabafa seus sentimentos de decepção, de raiva, de vontade de mudança… Ah! quem dera ter as palavras certas, o caminho marcado para dar-lhe a direção segura e mais feliz. Mas isto só ela pode descobrir. Ela tem que ir para dentro...

É preciso descobrir dentre as nossas dores, qual a que mais dói. É preciso definir o tamanho desta dor… e, assumindo nossas responsabilidades, pelas escolhas feitas, rastrear esta dor até seu ninho. É preciso coragem para aceitar nossas responsabilidades e nossa natureza Humana. Neste caminho, necessitamos de um grande amigo junto de nós: o perdão! Sem o perdão para nós e para os outros, estacaremos no meio do caminho. 

 O balançar das folhas e flores continuam. Meus pensamentos também continuam flutuando...mas olho para meu companheiro e pergunto sobre o que ele pensa. Há muito tempo na sua mudez contemplativa, ele apenas me responde: _Nada! Apenas observo!

 E me pergunto se faz parte desta cultura nórdica este contemplar… Que antes eu acreditava ser solidão; depois de muitos anos e muita convivência, dou minha mão a palmatória _ é simplesmente prazer em admirar, em comungar com a natureza. 

Sentem prazer em tirar um tempo para irem para dentro! Eu na minha brasilidade festiva não fui ensinada a contemplar… faço muito barulho. 

 Muitas vezes fecho a porta, mas não vou para dentro… Fecho o livro e sinto vontade de escrever. E mais uma vez a brisa quente provoca o bamboleio das folhas. Vou continuar a caminhada pelo meu corredor na busca de mim, mas os versículos de Mateus ficam comigo: “Observai  os pássaros no céu: eles não semeiam e não colhem, e não guardam nada nos celeiros; mas vosso Pai Celeste os alimenta…

Observai como crescem os lírios dos campos; eles não trabalham, nem fiam; e, entretanto, eu vos declaro que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, nunca se vestiu como um deles…”      (Mateus 6:26-29)



Foto: A.A.Machado

 

 


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Vire a página!


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Pediram  a ela para virar a página.
Ela ainda não conseguiu.
A luta é diária... mas como virar a página, se ainda dói tanto!
Não foi apenas uma perda de 09 semanas... foi uma perda de uma ano.
Um ano investindo em um sonho.
Um ano de idas e vindas,
de dores, de stress, de renúncias.
Sangramentos e perdas.
Foram duas perdas, mas a vontade era maior.
E, finalmente, ia dar certo!
sentiu-se plena: ia ser mãe!
Mas agora pediam para ela virar a página!
Se pelo menos houvesse uma razão para ela culpar ou compreender?!
Se havia, desconhecia. Só Ele poderia saber...
E, neste momento de perda, sua fé era muito fraca para sustentar sua dor.
E agora?! Seguia em frente, tentando colocar ordem na sua História chamada Vida.
Mas, por mais que fazia, percebia, com certa mágoa nervosa, que se este capítulo não fosse encerrado, nada mais faria sentido.
E como fazer?! Colocar um ponto final e virar a página?!
ou dar mais um "start"?
As dores seriam já conhecidas. As idas e vindas precisariam ser melhoradas...
Que diminuíssem o stress, por favor!
E que desta vez lhe dessem a certeza de um final feliz .
Impossível!
Aí residia o seu Medo.
Não queria mais perder...
Já havia perdido muito...perdido a referência de um pai.
Perdido a liberdade de ter um bem de valor, para um moleque que lhe apontou uma arma.
Perdido um trabalho que lhe trazia satisfação. Perdido a convivência de amigos queridos...
Não queria mais perder!
O Medo de perder lhe paralisava.
Pa-ra-li-sa-va!
Até o dia em que teve coragem de gritar:
"Vou virar a página sim... mas quando o meu   luto passar.
Vou virar a página sim, quando eu me sentir forte para enfrentar este Medo.
Vou virar a página sim, quando eu estiver pronta para um novo "start"."
Depois deste grito, ela chorou copiosamente, mas ela compreendeu que sentir Medo fazia parte de Viver. Compreendeu que perder fazia parte do Viver; mas que durante as perdas, haveria muitos outros ganhos e ainda,  o mais importante: Que ninguém mais lhe dissesse "Vire a página!" Virar a página é um ato individual. Só você sabe se terminou ou não.
O Medo lhe ensinara ter outras Coragens:
Coragem de acolher-se.
Coragem de acolher sua perda e transformá-la em saudade; para depois guardá-la quentinha no fundo do seu coração.
Coragem de olhar para as pessoas e saber que podia dividir com elas sim.
Coragem de admitir que precisava de ajuda.
Coragem de não desistir...
Porque " é de batalha que se vive a Vida".
Se fosse para perder, que Deus lhe desse a força necessária para sustentá-la, mas que o Medo não a paralisasse novamente.
Parar nunca, seguir em frente, sempre!
Era Mulher, era guerreira...Era filha de Deus!



quarta-feira, 19 de junho de 2019

Cala a boca, Magda!


                  
                                                                                          
_ Cala a boca, Magda!
Esta foi a primeira coisa que me veio à mente quando minha filha anunciou que naquele dia visitaríamos Antibes...
A associação foi mecânica e imediata: Caco Antibes e seu famoso bordão!(Risos)
Mas Antibes é mais que Caco Antibes. É mais que uma comuna francesa situada nos Alpes Maritimes, na região de Provence-Alpes-Côte d'Azur.
A pequena cidade é acolhedora e simpática... Passear por suas pequenas e coloridas ruas é deixar as preocupações desvanecerem- se na sua suave brisa marítima. Visitar o Chatô Grimaldi é respirar história e cultura ou simplesmente lembrar de Picasso e Grace Kelly.
Foi um fim de semana prolongado, que iniciou no sábado e terminou numa terça-feira. Devo confessar que achei curto, entretanto,  que riqueza de momentos! Estar no meio de 3 jovens, cheias de energia, me trouxe o prazer de ser jovem... do riso fácil... dos desentendimentos pueris.
Num dado momento me veio a palavra empatia. Como é difícil nos colocarmos no lugar do outro; como somos, ainda, tão cheios de melindres... 
Existe uma frase atribuída a Sigmund Freud, o criador da psicanálise, que traz os seguintes dizeres: "Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo". Se a sentença foi realmente proferida por Freud, não se sabe. Entretanto, o significado da mensagem é interessante. De acordo com o médico e psicanalista Mauro Hegenberg, professor do Instituto Sedes Sapientiae, a frase é precisa, já que cada um revela um pouco de si mesmo a partir do que identifica no outro. "Isso porque projetamos nos outros aquilo que está em nós mesmos", explica.
 _ Cala a boca, Magda!
 Seguimos em frente!
Perambulamos por ruas e praças de Nice, Antibes, Cannes e Mônaco. O sabor da novidade,  os "pitstops" para os drinks, as piadas trocadas, tudo era motivo de risos. "Olhe a CVC" - era o código para a conversa e risos extrapolados... "rir p o alto" era sinal de um self a ser feito... e assim fomos. 
Jovens são assim... cheios de códigos. 
Há pouco aprendi, com minhas netas, que o verbo deitar ganhou mais um significado completamente diverso: arrasar! Isto é: a gíria da gíria.
É por estas e por outras tantas situações que quero envelhecer ao lado de jovens... Quero ter o riso fácil. Só espero ter e receber mais empatia, mesmo quando não puder mais "deitar"... (Riso).



Foto A. A. Machado


segunda-feira, 4 de junho de 2018

Fui à Grécia




Fui à Grécia. Assim, como Shirley Valetine, queria fugir da rotina. É bem verdade que minha rotina não inclui um marido e nem tão pouco aquela rotina de dona de casa. Mas rotina é rotina! 
Gosto de novidades, mas sou um tanto preguiçosa para buscá-las... Mas ir à Grécia merecia este esforço.
Mala pronta, amiga a tira colo e uma vontade louca de encontrar uma espécie de Toni Conti, (Risos), nos acompanhava. 
A primeira parada foi na ilha de Santorini. Ela não nos decepcionou.  Vimos as famosas casas brancas, as ruas estreitas e tortuosas, os burrinhos que subiam incansavelmente trazendo os turistas preguiçosos... O mar azul com suas encostas de pedras. As lojinhas abarrotadas daquele azul e branco que convidavam os turistas ávidos.
Subimos e descemos muitas escadarias, provamos a culinária grega, (decidimos que o melhor é o Gyros), mergulhamos os pés em um aquário- limpeza feita por peixinhos- experimentamos a cerveja local Mythos, colhemos pedregulhos na praia de Kalamari e perdi a paciência com o dono do Kira Thira Jazz Bar, que me serviu um Aperol Spritz que não tinha gosto de absolutamente nada! E ainda tiveram a cara de pau de me cobrar. Depois de uma abordagem agressiva do dono ou gerente, sei lá, o jeito foi pagar e sair em busca de ambiente mais acolhedor...
Atenas nos recebeu tarde da noite. Na manhã ensolarada, descobrimos ruas mais largas, praças espaçosas e burburinho de atenienses e turistas apressados.
Duas mulheres descobrindo o velho mundo, através de uma arquitetura grandiosa, bela e única! Revisamos nossos conhecimentos de História, Geografia, Filosofia, enquanto visitávamos a Acrópole, o Monte Lycabettus, a academia de Atenas e outras tantas ruínas e espaços.  Dançamos o Kalamatiô e fizemos a famosa quebra de pratos... 
Quebramos mais que pratos... Quebramos a rotina de nossas vidas... Quebramos a ilusão juvenil do romance grego...
Os deuses gregos ficaram restritos às estátuas brancas e frias de medidas perfeitas; segundo a amiga nem tão perfeitas assim, uma vez que a genitália masculina minúscula não condizia com aquele corpo musculoso. A população , na sua maioria, formada por pessoas de baixa estatura e sem grandes cuidados com a aparência. Os escassos sorrisos que encontramos eram  quase sempre feitos por dentes amarelados ou escuros, com grandes janelas para o vácuo... 
Fizemos uma grande descoberta: É mito o mito do Deus Grego! Assim como é mito que não apreciamos a rotina. Tudo na sua medida certa merece e deve ser apreciado... 
A Grécia sempre será uma doce lembrança atrelada a Shirley Valentine e sua famosa frase:_"Eu não me apaixonei por ele. Eu estou apaixonada pela idéia de viver".
Não me apaixonei pela Grécia. Mas continuo apaixonada pela idéia de viver... de viajar...

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Quem sou eu?


             

Ao longo da nossa vida, tantos papéis são assumidos e, para cada um deles, vamos desenhando uma máscara que, aos poucos, achamos natural acomodá-la em nossa face. Seja a máscara da criança mimosa ou levada, da adolescente inquieta ou medrosa, da mulher incompleta ou exuberante, da profissional eficiente ou predadora... são tantas as personas! Elas vão se sobrepondo umas às outras... somando resquícios das anteriores...
Assim vamos seguindo...
Construindo, revitalizando, desconstruindo e mais uma vez reconstruindo nossas histórias. Sem muito tempo para o refletir, mas apenas seguindo em frente...
Agora, aos sessenta anos, descubro estar me tornado invisível… as personas, as máscaras, as quais me incorporei, aos poucos se desvanecem… E, um tanto surpresa, me questiono: E agora, quem sou eu?
Uma equilibrista na corda bamba da vida!
Esta esguia equilibrista, que existe dentro de cada uma de nós, tende sempre a buscar a aprovação dos espectadores, buscar o aplauso, a admiração… E, para nós mulheres, é sempre mais difícil.
Por onde andam os olhares que por tantas vezes nos admiraram? Alguns até mesmo chegaram a nos constranger…
Envelhecemos… não existem mais!
Daí a invisibilidade do envelhecimento nos ser tão dolorido!
E quando nos despimos das máscaras, das personas, que ao longo da vida assumimos, descobrimos que deixamos o mais importante para trás: Descobrir quem somos e qual é o nosso verdadeiro propósito de vida!
Com equilíbrio, alternando medo e coragem, com passos mais vagarosos, mas ainda com uma chama no olhar, descubro que meu medo me paralisou e ainda me paralisa, impedindo-me de realizar, de descobrir e de buscar meus propósitos.
Reconheço o meu erro em culpar pessoas ou situações pelas minhas escolhas e ações; mas, principalmente, reconheço que estou aprendendo a ser mais condescendente com as pessoas e comigo mesma. É preciso me perdoar e seguir…
É preciso ser Mário Quintana: Eles passarão, eu passarinho...
Com os cabelos brancos assumidos, com um certo desconforto e medo do envelhecer, me surpreendo com habilidades desconhecidas:  a Arte de Não Fazer Nada e estar sempre ocupada!
As leituras, os filmes, os pequenos "grandes" encontros com desconhecidos, amigos e familiares, as tentativas de aprender a meditar, o olhar contemplativo sobre as diferentes paisagens, o fitness, a yoga, as conversas aqui e ali, a consciência de em cada pensamento, palavra e gesto buscar ser um ser melhor, ser mais grata... Tudo isto preenche meu tempo… Vou descobrindo  o prazer de ser quem sou: uma mulher simples que não desiste de seguir andando pela corda bamba da vida…
Reconhecer que todas as vivências contribuíram para ser o que hoje sou, me reconforta e ao mesmo tempo me desafia a mudanças.
A invisibilidade me permite ser ou descobrir quem de fato sou… Cabe a mim não me tornar invisível quando me olhar no espelho. Me reconhecer exige esforço, determinação e ação.
Você pode ser invisível aos olhos dos outros, mas precisa se reconhecer no espelho da sua alma.
Este sim, é o grande desafio do envelhecer...Não ser invisível para si.

Foto: A.A. Machado


                                                            

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O que eu tenho para dar?




Acordo com o barulhinho tímido  da chuva. 
Ela chegou e espantou o nosso sol de verão tão curto e tão esperado. 
É ela, a chuva, que doravante nos fará companhia. Às vezes fina e constante, outras, quando se associa ao vento uivante, se torna poderosa e assustadora... 
Depois de um verão prazeroso, onde pude descobrir um pouquinho  mais desta velha senhora chamada Europa, sinto o recolhimento da chuva agradável. Deixo de lado o refrescante Aperol Spritz e a cerveja gelada e espumante para o aconchego do meu chá quente no meu espaço.
Este recolhimento me traz lembranças... e percebo o quanto certas pequenas gentilezas nos marcam.
Há cerca de 20 anos aluguei a minha casa para uma mulher e seu filho adolescente. Ela era uma mulher encorpada, bonita, elegante,  com um  sorriso franco. Expressava-se com clareza e inteligência. Devo confessar que fiquei um tanto ressabiada com esta nova inquilina. Ela não se encaixava naquela região de pessoas simples... 
Assim que ela mudou-se, perguntou se poderia trocar as fechaduras das portas por umas mais sofisticadas, naturalmente eu não deveria me preocupar com os custos, uma vez que era o desejo dela; foi o que ela me disse. 
Depois de quase dois anos residindo por lá, sem jamais ter feito uma reclamação sequer, algo incomum nos inquilinos, ela avisou-me que estaria de mudança no próximo mês. 
Havia encontrado um Amor. Iriam morar juntos em Brasília. Ele era advogado. 
Dia aprazado para a entrega das chave, lá fui eu um tanto pesarosa por perder tão boa inquilina. Junto com as chaves, entregou-me um lindo buque de flores!
Era o agradecimento por ter residido em minha casa.
Jamais esqueci este gesto... 
Quando a vi saindo no carro com o Amor achei que ela iria para o lugar merecido.
Jamais tornei a vê-la, mas o gesto dela permanece comigo e, sempre que dela me lembro, rogo a Deus que ela sempre encontre flores pelo seu caminho.
Ela ensinou-me...
Hospedei-me por alguns dias na casa de amigos e, quando isto acontece, procuro oferecer um jantar de despedida e uma pequena lembrança para os anfitriões; mas desta vez eles viajaram antes do esperado. Me vi sem saber como retribuir a gentileza da hospedagem calorosa. Comprei docinhos especiais que foram acondicionados numa bela caixa, combinando com um vaso de orquídea. Deixei-os sobre a mesa e fui em busca de novos rumos...
Esta semana, recebo um telefonema para contar-me que a orquídea floriu mais uma vez e que eles , por mais que buscassem, não conseguiam encontrar os deliciosos docinhos . Afinal, onde eu os havia encomendado?!  
Depois daquela adorável inquilina, aluguei a casa para outras duas pessoas, que cheguei a considerar como amigas. Se não próximas, mas amigas.
Após  quase 15 anos residindo por lá, fui informada, por terceiros, que elas haviam mudado e ao invés de flores recebi uma casa depredada...
Depois de um mês, usufruindo a companhia da amiga que veio passar o verão comigo, descubro que uma das minhas orquídeas morreu...
Talvez seja a chuva constante lá fora...
Talvez seja o saudosismo que me persegue...
Talvez seja a idade que nos torna fora de moda...
Mas, talvez o mais certo é, como minha mãe dizia, "Cada um dá o que tem!"
E você, o que tem para dar?





Foto: Lúcia Boonsrtra

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Sob os ares da Itália


   Viajar não é só  decidir o destino, comprar o ticket, agendar o hotel e arrumar as malas... Viajar é adquirir saberes é, principalmente, experimentar sabores... Saborear não só através do paladar, mas é expandir este saborear, aguçando os cinco sentidos.
  Com este propósito acomodei o necessário na pequena mala de mão e com o coração um tanto apertado segui em direção à região da Toscana. Devo confessar que o filme Sob o Céu da Toscana, foi a mola propulsara da escolha do lugar. Além das paisagens magníficas, havia uma certa similaridade de situação e de propósito entre mim e a personagem: Dor, redescobrir e recomeço.
  Minha primeira parada foi em Livorno, cidade do histórico porto dos idos século XVII e XVIII. Cidade pequena, com atrações interessantes, inclusive um belo calçadão à beira mar, mas eu devo dizer que minha impressão é de uma cidade mal aproveitada... Quem sabe voltando... Em seguida, de passagem à Pisa, segui para a região denominada Riviera Ligure. Ali, saborei a brisa salgada do mar, o fresco e adocicado aroma das várias figueiras, senti a ardência do sol na pele, a boca ser refrescada pelos sabores naturais de um delicioso "gelato"; ouvi o murmúrio das árvores nas subidas dos morros e, ainda vi o mar transparente verde-azulado lamber as encostas dos penhascos... Saborei cada minuto!
    Em seguida, explorei uma pequena, mas fascinante parte da Ligure. La Spezia e Porto Vernere. E, novamente o desejo de mais descobertas e o prazer de ser mais uma vez surpreendida me invadiu...
  Em  Florença, quando o sol adentrava em sua carruagem de fogo, para a longa viagem do anoitecer,  eu me sentava em um dos vários cafés espalhados pelas largas pequenas praças, degustava meu colorido e fresco Aperol Spritz e apreciava o tagarelar dos falares da terra que se mesclavam aos estrangeiros.
     Degustava cada segundo... Eram únicos!
 Durante as pausas de caminhada, geralmente no final das tardes, sentia que a languidês do tempo me devorava e eu transitava entre meu passado, meus feitos, meus desfeitos, minhas desistências, sonhos sonhado e momentos do agora; da realização, da reflexão, e dos questionamentos...
    Me surpreendi com quantas coisas havia já feito e, agora, o quanto o simples fato de viajar só, sem ter quem me esperava, havia me assustado. Me senti criança com medo do que estava por vir...
    É bem verdade quando Mia Couto diz que " o medo cria falsas identidades". Com este medo, que muitas vezes me assola, descubro identidades que não são minhas; ou que eu as desconheço...
   Mas aos poucos,  o medo foi cedendo lugar ao prazer da descoberta, ao prazer do experimentar e, então, me reafirmei. Subir e descer aqueles altos morros em Cinqüe Terre, decidir o rumo a tomar no próximo dia, adentrar pelas estreitas vielas, subir as imensas escadarias, tomar o trem na incerteza de estar no destino certo,  decidir ficar ou seguir , tudo no meu tempo, me fez acreditar de que preciso e posso fazer mais...
   É bem verdade que houve momentos de desejo de ter alguém, de compartilhar... Mas os meus livros e a minha vontade de descobrir a próxima esquina, a próxima escada a subir, o próximo monumento a conhecer, afastaram  rapidamente o sentimento de solidão.
   A Itália é linda... Histórica, acolhedora, com uma gastronomia deliciosa e paisagens de perder o fôlego. Porto Vernere, Lucca, La Spezia, Livorno... Cinqüe Terre, Florença?!
    Não há o que falar, há  que se visitar...
   Não comprei a minha Villa Bramasole, não encontrei nenhum Marcelo, não  conheci a cidade de Cortona e nem conheci o parceiro escritor,  mas posso afirmar que voltei me sentindo muito melhor...
    Portanto bela, Itália, me aguarde!
    Desejo que você "me roube do mundo, do tempo e da rotina"...( Mia Couto).



Foto: Lúcia Boonstra.