domingo, 27 de julho de 2025

As Caudas do Encontro

   

                                            

           "Vaidade de vaidades, tudo é vaidade_ sopro que passa, orgulho que não permanece." 

             ( Eclesiastes 1:2, com complemento poético)

 Luiza chegou ao local do evento com a serenidade de quem conhece o próprio passo. Usava um vestido azul escuro, simples, linhas fluidas; seguia com elegância discreta. Seu olhar percorria o salão com curiosidade genuína. A luz era dourada, os lustres reluziam e, ao fundo, ouvia-se um quarteto de cordas dedilhando suavemente algo que lembrava Debussy.

    A recepção a surpeende: garçons impecáveis com andejas espelhadas, taças tilintando, havia risos bem colocados e, principalmente, fotógrafa atenta aos brilhos. Antes mesmo que Luiza tirasse o casaco, uma lente a mirou com precisão. O clique da câmera disparou, capturando a imagem. O pensamento distanciou-se. Luiza apenas sorriu e seguiu adiante, sentindo-se como um detalhe fora daquela moldura social.

    Quando recebeu o convite para o Encontro de Poetas do Sul, sentiu-se honrada. Sabia que sua poesia ainda tateava territórios. Escrevia por pulsão, por necessidade de atravessar silêncios com palavras. Mas nunca se vangloriava por isso.

    no salão, começou a conversar com um senhor que se apresentara como escritor performático. Trajava uma roupa iridescente, tecido mutável, que reluzia conforme a luz _ e a vaidade. Iniciaram um diálogo sobre métrica e oralidade, mas Luiza notou que, aos poucos, ele deixava de responder para se ajeitar no espelho de uma coluna. A cada frase dita por ela, ele rebatia com algo sobre si mesmo. Ela comentou a função social do poema; ele respondeu com o número de seguidores nas redes.

     Foi nesse momento que Luiza viu, pela primeira vez, a cauda. Uma cauda literal. Rabo comprido, penas vistosas, surgiu às costas dele, como se a vaidade se materializasse em plumagem. Ela piscou, achando ser efeito da luz, as logo percebeu outras pessoas no salão ostentando o mesmo ornamento. Pavões. Surreais, autênticos, impossíveis.

    Pavões literários.

    Cada um mais colorido, mais largo, mais decorado com brilhos, glitter e palavras flutuantes. A fotógrafa, agora com uma câmera de lentes múltiplas, olhar embriagado, os seguia em espasmos criativos. Os cliques multiplicavam-se. " Nenhuma legenda seria suficiente" , pensava.

     Luiza buscava uma interlocução real. Estava ávida de conhecimentos, de trocas... Aproximou-se de uma poetisa cujos poemas conhecia e admirava. Iniciou uma conversa com entusiasmo, mas, à medida em que falava, percebeu que a outra lhe olhava com um misto de compaixão, indiferença. De súbito, outra cauda se abriu. Longa, dourada, ondulando como verso rimado. Competição muda, porém gritante. Não havia a elegância do diálogo. Predominava o diálogo do Eu. Os elogios vazios apenas eram reflexos do que o outro esperava _ e não do que se via, sentia ou lia.

    Constrangida, Luiza afasta-se. Interceptada por uma apresentadora do evento que, sem aviso, pediu que ela compartilhasse um poema ao vivo, no microfone, em meio àquela platéia empavonada. Luiza congelou.

    Respirou fundo. Aproximou-se do microfone. Sabia de cor dezenas de poemas, sentiu a mudez. A luz a cegava. O silêncio, incômodo. Tentou dizer algo, a voz falhou. A plateia piscava em caudas. Alguns gravavam, outros riam discretamente. Alguém comentou:

    _ Ela parecia tão segura.

    Luiza desceu do palco devagar. Não chorou. Sentou-se num canto, perto de uma mesa de doces; salivando o amargo, observou: interações, olhares escorregadios, vaidades saltando da pele.

    Foi ali, num canto sem cauda, que uma jovem se aproximou. Não tinha adereços nem fala inflamada. Só um caderno nas mãos, olhos ansiosos.

    _ Eu a acompanho no blog. Seus textos me fazem pensar. Você escreve de um jeito qque a gente sente junto. Dá vontade de ler mais, de descobrir mais...

    Luiza sorriu. Era só isso.

    Mais tarde, enquanto saia do evento, já sem luzes nem música, recordou as palavras do Sermão da Montanha: "Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus".  E pensou, que ali, entre pavões e silêncios, aprendeu uma nova forma de escrever não com as penas, mas com o voo da alma. 

        



2 comentários:

  1. Belo texto. Sua criatividade está se tornando sua marca! A fluência de sua narrativa é admirável. Parabéns!

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  2. Grata pelas carinhosas palavras. Servem de estímulo para continuar a caminhada.

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