segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O mercador de Veneza

 

Sinto que as demandas de fim de ano estão me consumindo. Embora repita, quase como um mantra contemporâneo, o discurso de priorizar o tempo, tenho a incômoda sensação de desperdiçá-lo. Ele escorre pelas redes sociais, se dilui em devaneios improdutivos, acomoda-se no prazer legítimo — mas excessivo — de maratonar uma série. O cansaço não vem apenas do que faço, mas do que deixo de fazer com consciência.

Durante este recesso, que para mim será mais prolongado do que o habitual, pretendo reler O mercador de Veneza, de Shakespeare. Lembro-me com nitidez de tê-la assistido ainda adolescente, no Grande Teatro Tupi, da extinta Rede TV Tupi. A peça   tinha como ator principal o talentoso Ednei Geovenazzi. Causou-me um impacto profundo. Eu já era uma leitora voraz, mas ainda não havia lido Shakespeare. Conhecia Romeu e Julieta pelo nome, pelo mito, pelo eco cultural — não pela experiência da leitura. Ver O mercador de Veneza foi, à época, um choque estético e ético: algo ali me inquietou, embora não soubesse nomear exatamente o quê.

Hoje, percebo que caminhamos por uma Veneza que já não tem canais, mas timelines; já não ostenta máscaras de carnaval, mas discursos cuidadosamente maquiados. Ainda assim, o enredo é antigo. Shakespeare, com a precisão dos grandes anatomistas da alma, sabia: o tempo muda os figurinos, não os vícios.

Em O mercador de Veneza, Shylock não é apenas um personagem; é um espelho desconfortável. Judeu, estrangeiro, reduzido à caricatura por uma sociedade que precisa apontar um culpado para preservar sua própria imagem de civilidade. Ele concentra em si o ódio social legitimado, a exclusão travestida de norma. Hoje, basta trocar o gueto pelo algoritmo, a praça pública pelo noticiário, e veremos a mesma engrenagem funcionando com assustadora eficiência. O preconceito continua circulando como moeda invisível, aceito em piadas, silêncios cúmplices e indignações cuidadosamente seletivas.

O racismo — ainda que a peça o formule sobretudo em termos religiosos e culturais — persiste como cláusula tácita do contrato social. Na peça, ele se ancora na lei; em nosso tempo, na retórica da “opinião”. O efeito permanece idêntico: desumanizar para justificar a exclusão. Shylock pede justiça e recebe moralismo. Hoje, grupos inteiros pedem igualdade e recebem conselhos sobre resiliência, paciência ou mérito. A violência simbólica tornou-se mais polida, mas não menos eficaz.

E há a ambição — sempre ela — essa fome que não se sacia, apenas se refina. Antônio arrisca tudo em nome do comércio; nossos mercadores contemporâneos apostam futuros inteiros em mercados abstratos, cifras voláteis, promessas de crescimento infinito. A libra de carne já não é arrancada do corpo, mas do tempo, da saúde mental, da dignidade cotidiana. O lucro segue sendo apresentado como virtude, mesmo quando cobra juros em vidas.

Talvez o aspecto mais perturbador da peça — e do presente — seja a falsa vitória da justiça. Pórcia triunfa no tribunal, mas o faz humilhando, silenciando, forçando a conversão do outro. A causa é ganha, mas o humano é perdido. Quantas vezes, hoje, celebramos decisões “corretas” que preservam intactas as estruturas de exclusão? Quantas vitórias morais servem apenas para reafirmar quem tem o direito de falar — e quem deve calar?

A lição shakespeariana que resiste ao tempo é incômoda: não há neutralidade possível em sociedades fundadas na desigualdade. Sempre haverá um Shylock à margem, sempre haverá um tribunal disposto a chamá-lo de vilão para não encarar o próprio reflexo.

Talvez seja por isso que reler Shakespeare, neste recesso, me pareça menos um gesto de erudição e mais um exercício de lucidez. Porque a pergunta que O mercador de Veneza insiste em nos fazer — e que seguimos adiando — permanece urgente: quando pedimos justiça, buscamos equidade ou apenas vencer o processo? Se for apenas a vitória, continuaremos encenando a mesma peça. Com novos cenários, o mesmo texto e um público perigosamente habituado ao aplauso.

Você se arrisca a ler ou reler O mercador de Veneza?