sábado, 14 de fevereiro de 2026

O Catetinho não está em ruínas — está em silêncio. E esse silêncio acusa.

    

                                                 


        

Chega-se ao lugar como quem se aproxima de um capítulo vivo da história nacional: a primeira residência presidencial de Brasília, símbolo de improviso, decisão política, pressa desenvolvimentista, promessa de futuro. Madeira erguida no meio do cerrado como gesto de coragem e projeto. Mas basta atravessar a porta para perceber que a narrativa oficial não resiste ao cheiro de mofo.

As rachaduras falam. O pó fala. Os cantos escurecidos falam. A higiene descuidada é uma forma de discurso — talvez o mais honesto — sobre o valor que damos à memória. Não é apenas desgaste material: é abandono simbólico. É pedagogia negativa. O que se ensina ali, sem palavras, é que o passado serve para fotografia institucional, não para preservação contínua.

Dizer que falta interesse seria uma análise preguiçosa. Os turistas continuam chegando. Observam, leem as placas desbotadas, caminham em volta do prédio histórico. Mas os rostos mudam durante o percurso. A expectativa inicial se dissolve em decepção contida. Não é desinteresse do público — é desalento diante do desleixo. A apatia no atendimento, o tratamento burocrático de quem guarda — mas não protege — transforma patrimônio em repartição cansada.

O Catetinho não é apenas uma construção antiga. É documento político em forma de arquitetura. Representa um momento de inflexão do regime, um marco da economia desenvolvimentista, um gesto de fundação. Ali se concentraram decisões, conflitos, estratégias e sonhos que moldaram o país moderno. Quando a manutenção falha, não é a madeira que cede — é a narrativa histórica que apodrece.

E, paradoxalmente, o entorno permanece generoso. A paisagem oferece frescor, sombra, ar limpo, um convite à pausa. Um pequeno oásis que ainda cumpre sua função estética e reflexiva. A natureza resiste melhor do que a administração.

O problema não é falta de verba apenas — é falta de cultura de preservação. Somos a civilização da inauguração. Amamos a fita cortada, o discurso, a placa de bronze. Depois, abandonamos. Preferimos o espetáculo do novo ao compromisso da manutenção. Construímos para aparecer, não para durar. O ciclo é conhecido: pompa, foto, esquecimento, ferrugem.

Essa negligência não é neutra. Ela educa o eleitor, distorce a memória coletiva e prepara o terreno para escolhas enganosas. Quem não preserva o passado não avalia o presente com rigor. Sem memória cuidada, a crítica perde referência.

Que os ventos da responsabilidade soprem — sobre a comunidade, sobre a secretaria de turismo, sobre o governo do Distrito Federal. Preservar é um ato político de longo prazo. É gestão, técnica, respeito.

Manutenção não é detalhe: é ética pública aplicada à matéria.

Porque um país que não conserva seus marcos não constrói futuro — apenas repete esquecimentos.

Viva a memória.



Foto: Carol Vieira/CC BY-SA 4.0

https://pt.wikipedia.org/wiki/Catetinho