Chega-se
ao lugar como quem se aproxima de um capítulo vivo da história nacional: a
primeira residência presidencial de Brasília, símbolo de improviso, decisão
política, pressa desenvolvimentista, promessa de futuro. Madeira erguida no
meio do cerrado como gesto de coragem e projeto. Mas basta atravessar a porta
para perceber que a narrativa oficial não resiste ao cheiro de mofo.
As
rachaduras falam. O pó fala. Os cantos escurecidos falam. A higiene descuidada
é uma forma de discurso — talvez o mais honesto — sobre o valor que damos à
memória. Não é apenas desgaste material: é abandono simbólico. É pedagogia
negativa. O que se ensina ali, sem palavras, é que o passado serve para fotografia
institucional, não para preservação contínua.
Dizer
que falta interesse seria uma análise preguiçosa. Os turistas continuam
chegando. Observam, leem as placas desbotadas, caminham em volta do prédio histórico. Mas
os rostos mudam durante o percurso. A expectativa inicial se dissolve em
decepção contida. Não é desinteresse do público — é desalento diante do
desleixo. A apatia no atendimento, o tratamento burocrático de quem guarda —
mas não protege — transforma patrimônio em repartição cansada.
O
Catetinho não é apenas uma construção antiga. É documento político em forma de
arquitetura. Representa um momento de inflexão do regime, um marco da economia
desenvolvimentista, um gesto de fundação. Ali se concentraram decisões,
conflitos, estratégias e sonhos que moldaram o país moderno. Quando a
manutenção falha, não é a madeira que cede — é a narrativa histórica que
apodrece.
E,
paradoxalmente, o entorno permanece generoso. A paisagem oferece frescor,
sombra, ar limpo, um convite à pausa. Um pequeno oásis que ainda cumpre sua
função estética e reflexiva. A natureza resiste melhor do que a administração.
O
problema não é falta de verba apenas — é falta de cultura de preservação. Somos
a civilização da inauguração. Amamos a fita cortada, o discurso, a placa de
bronze. Depois, abandonamos. Preferimos o espetáculo do novo ao compromisso da
manutenção. Construímos para aparecer, não para durar. O ciclo é conhecido:
pompa, foto, esquecimento, ferrugem.
Essa
negligência não é neutra. Ela educa o eleitor, distorce a memória coletiva e
prepara o terreno para escolhas enganosas. Quem não preserva o passado não
avalia o presente com rigor. Sem memória cuidada, a crítica perde referência.
Que
os ventos da responsabilidade soprem — sobre a comunidade, sobre a secretaria
de turismo, sobre o governo do Distrito Federal. Preservar é um ato político de
longo prazo. É gestão, técnica, respeito.
Manutenção
não é detalhe: é ética pública aplicada à matéria.
Porque
um país que não conserva seus marcos não constrói futuro — apenas repete esquecimentos.
Viva
a memória.
Foto: Carol Vieira/CC BY-SA 4.0
https://pt.wikipedia.org/wiki/Catetinho


