Folhas de Outono
sábado, 25 de julho de 2026
A cabana Encantada
quarta-feira, 15 de julho de 2026
A Porta Entreaberta
A viagem no tempo é solitária e silenciosa: quanto mais avançamos, menos somos vistos por aqueles que ficam para trás.
Dona Alzira tinha aprendido a envelhecer em silêncio. Um talento adquirido devagar, silencioso. Os filhos a visitavam aos domingos, os netos às vezes a beijavam na testa antes de mergulharem novamente nas telas luminosas dos celulares.
Sorria, servia bolo, recolhia as migalhas.
Enquanto os sons iam e vinham pela casa, percebia algo estranho — parecia que sua presença ecoava menos a cada semana.
Aos setenta e oito anos, descobrira que a invisibilidade não chegava como um ataque, mas como uma névoa. Primeiro, deixavam de perguntar sua opinião. Depois, não notavam seu esforço. Por fim, deixavam de vê-la. E ela, que sempre fora uma mulher firme, começou a acreditar que talvez fosse natural desaparecer assim — desaparecendo numa sombra escura.
Memórias da desaparição
Lembrou-se da primeira vez em que sentira essa sombra crescer: estava numa festa de aniversário da família, quando ouviu um dos netos perguntar quem havia feito a maionese.
— Foi a vovó! — respondeu orgulhoso um dos filhos.
Antes que pudesse sorrir, alguém acrescentou:
— Ah, ela sempre faz, nem precisa agradecer — Todos continuaram conversando como se ela fosse apenas parte do mobiliário, algo útil, estável, silencioso.
Outra lembrança emergiu: uma ida ao médico. Na sala de consulta, o doutor falava apenas com a filha mais velha — sobre os exames, remédios, dores que ela
mesma descrevera momentos antes. A palavra de Dona Alzira tornou-se descartável,
ou, pior, inexistente. Sentiu a estranha experiência de estar presente no próprio corpo e, ao mesmo tempo, excluída de qualquer autoridade sobre ele.
Havia, também, a situação no supermercado. Estava na fila, apoiada no carrinho, quando um homem mais jovem, sem sequer olhar em sua direção, passou na sua frente como se ela fosse ar transparente. Quando protestou, num fio de voz, ele apenas fez um
gesto vago com a mão — algo entre desculpa e incômodo — e continuou. Os outros na fila desviaram os olhos, não por maldade, mas pelo desconforto de testemunhar uma injustiça que ninguém queria admitir.
O episódio que mais a marcou ocorreu dentro de sua própria casa. A família estava reunida para o almoço de Páscoa. As conversas iam animadas na mesa, passando por eleições, séries, viagens, promoções de emprego. Em determinado momento, ela tentou contar uma história antiga, da época em que os filhos eram pequenos e moravam num apartamento minúsculo. Abriu a boca, respirou para começar e, antes que dissesse a primeira frase, alguém mudou de assunto. Sua história ficou suspensa no ar, um pássaro que perde o impulso e cai sem nunca ter voado.
Ela sorriu para disfarçar, mas naquele instante percebeu que já não eram apenas os outros que deixavam de ouvi-la — ela mesma começava a duvidar se tinha algo a dizer.
O reencontro
Então reencontrou os livros.
Começou por um volume empoeirado de Clarice, que encontrara atrás das toalhas de mesa. As palavras a envolveram — ainda lhe serviam, ainda a aqueciam. Depois veio outra leitura, outra, outra. Cada página parecia devolver-lhe um pedaço que ela não sabia ter perdido.
Mas o verdadeiro abalo veio numa tarde em que, ao sair para pagar uma conta no centro, Dona Alzira entrou por impulso na pequena biblioteca municipal. A porta estava entreaberta.
Um cartaz escrito à mão anunciava: “Sarau de Iniciantes — traga sua voz.
Sua voz.
A última vez que alguém lhe pedira isso, um dos filhos ainda usava aparelho nos dentes.
Sentou-se perto da janela, ouvindo as pessoas declamarem pequenos poemas, textos tímidos, fragmentos de memórias. Mãos tremiam, gargantas falhavam — mas ali
todos pareciam ser vistos. Todos tinham um lugar na roda. Inclusive ela.
Quando a mediadora perguntou se mais alguém gostaria de ler, um silêncio leve invadiu a sala. Dona Alzira sentiu o coração bater fundo, como se despertasse de uma longa dormência. Lembrou das palavras que rabiscara durante a madrugada, num caderno velho: pensamentos soltos sobre solidão, sobre o que é permanecer quando o mundo já segue adiante.
Por um instante, pensou em levantar a mão.
Pensou em dizer “eu”.
sábado, 14 de fevereiro de 2026
O Catetinho não está em ruínas — está em silêncio. E esse silêncio acusa.
Chega-se
ao lugar como quem se aproxima de um capítulo vivo da história nacional: a
primeira residência presidencial de Brasília, símbolo de improviso, decisão
política, pressa desenvolvimentista, promessa de futuro. Madeira erguida no
meio do cerrado como gesto de coragem e projeto. Mas basta atravessar a porta
para perceber que a narrativa oficial não resiste ao cheiro de mofo.
As
rachaduras falam. O pó fala. Os cantos escurecidos falam. A higiene descuidada
é uma forma de discurso — talvez o mais honesto — sobre o valor que damos à
memória. Não é apenas desgaste material: é abandono simbólico. É pedagogia
negativa. O que se ensina ali, sem palavras, é que o passado serve para fotografia
institucional, não para preservação contínua.
Dizer
que falta interesse seria uma análise preguiçosa. Os turistas continuam
chegando. Observam, leem as placas desbotadas, caminham em volta do prédio histórico. Mas
os rostos mudam durante o percurso. A expectativa inicial se dissolve em
decepção contida. Não é desinteresse do público — é desalento diante do
desleixo. A apatia no atendimento, o tratamento burocrático de quem guarda —
mas não protege — transforma patrimônio em repartição cansada.
O
Catetinho não é apenas uma construção antiga. É documento político em forma de
arquitetura. Representa um momento de inflexão do regime, um marco da economia
desenvolvimentista, um gesto de fundação. Ali se concentraram decisões,
conflitos, estratégias e sonhos que moldaram o país moderno. Quando a
manutenção falha, não é a madeira que cede — é a narrativa histórica que
apodrece.
E,
paradoxalmente, o entorno permanece generoso. A paisagem oferece frescor,
sombra, ar limpo, um convite à pausa. Um pequeno oásis que ainda cumpre sua
função estética e reflexiva. A natureza resiste melhor do que a administração.
O
problema não é falta de verba apenas — é falta de cultura de preservação. Somos
a civilização da inauguração. Amamos a fita cortada, o discurso, a placa de
bronze. Depois, abandonamos. Preferimos o espetáculo do novo ao compromisso da
manutenção. Construímos para aparecer, não para durar. O ciclo é conhecido:
pompa, foto, esquecimento, ferrugem.
Essa
negligência não é neutra. Ela educa o eleitor, distorce a memória coletiva e
prepara o terreno para escolhas enganosas. Quem não preserva o passado não
avalia o presente com rigor. Sem memória cuidada, a crítica perde referência.
Que
os ventos da responsabilidade soprem — sobre a comunidade, sobre a secretaria
de turismo, sobre o governo do Distrito Federal. Preservar é um ato político de
longo prazo. É gestão, técnica, respeito.
Manutenção
não é detalhe: é ética pública aplicada à matéria.
Porque
um país que não conserva seus marcos não constrói futuro — apenas repete esquecimentos.
Viva
a memória.
Foto: Carol Vieira/CC BY-SA 4.0
https://pt.wikipedia.org/wiki/Catetinho
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
O mercador de Veneza
Sinto que as demandas de fim de ano
estão me consumindo. Embora repita, quase como um mantra contemporâneo, o
discurso de priorizar o tempo, tenho a incômoda sensação de desperdiçá-lo. Ele
escorre pelas redes sociais, se dilui em devaneios improdutivos, acomoda-se no
prazer legítimo — mas excessivo — de maratonar uma série. O cansaço não vem
apenas do que faço, mas do que deixo de fazer com consciência.
Durante este recesso, que para mim
será mais prolongado do que o habitual, pretendo reler O
mercador de Veneza, de Shakespeare. Lembro-me com nitidez de
tê-la assistido ainda adolescente, no Grande Teatro Tupi,
da extinta Rede TV Tupi. A peça tinha como ator principal o talentoso Ednei
Geovenazzi. Causou-me um impacto profundo. Eu já era uma leitora voraz, mas
ainda não havia lido Shakespeare. Conhecia Romeu e Julieta
pelo nome, pelo mito, pelo eco cultural — não pela experiência da leitura. Ver O
mercador de Veneza foi, à época, um choque estético e ético:
algo ali me inquietou, embora não soubesse nomear exatamente o quê.
Hoje, percebo que caminhamos por uma
Veneza que já não tem canais, mas timelines; já não ostenta máscaras de
carnaval, mas discursos cuidadosamente maquiados. Ainda assim, o enredo é
antigo. Shakespeare, com a precisão dos grandes anatomistas da alma, sabia: o
tempo muda os figurinos, não os vícios.
Em O mercador de Veneza,
Shylock não é apenas um personagem; é um espelho desconfortável. Judeu,
estrangeiro, reduzido à caricatura por uma sociedade que precisa apontar um
culpado para preservar sua própria imagem de civilidade. Ele concentra em si o
ódio social legitimado, a exclusão travestida de norma. Hoje, basta trocar o
gueto pelo algoritmo, a praça pública pelo noticiário, e veremos a mesma
engrenagem funcionando com assustadora eficiência. O preconceito continua
circulando como moeda invisível, aceito em piadas, silêncios cúmplices e
indignações cuidadosamente seletivas.
O racismo — ainda que a peça o formule
sobretudo em termos religiosos e culturais — persiste como cláusula tácita do
contrato social. Na peça, ele se ancora na lei; em nosso tempo, na retórica da
“opinião”. O efeito permanece idêntico: desumanizar para justificar a exclusão.
Shylock pede justiça e recebe moralismo. Hoje, grupos inteiros pedem igualdade
e recebem conselhos sobre resiliência, paciência ou mérito. A violência
simbólica tornou-se mais polida, mas não menos eficaz.
E há a ambição — sempre ela — essa
fome que não se sacia, apenas se refina. Antônio arrisca tudo em nome do
comércio; nossos mercadores contemporâneos apostam futuros inteiros em mercados
abstratos, cifras voláteis, promessas de crescimento infinito. A libra de carne
já não é arrancada do corpo, mas do tempo, da saúde mental, da dignidade
cotidiana. O lucro segue sendo apresentado como virtude, mesmo quando cobra
juros em vidas.
Talvez o aspecto mais perturbador da
peça — e do presente — seja a falsa vitória da justiça. Pórcia triunfa no
tribunal, mas o faz humilhando, silenciando, forçando a conversão do outro. A
causa é ganha, mas o humano é perdido. Quantas vezes, hoje, celebramos decisões
“corretas” que preservam intactas as estruturas de exclusão? Quantas vitórias
morais servem apenas para reafirmar quem tem o direito de falar — e quem deve
calar?
A lição shakespeariana que resiste ao
tempo é incômoda: não há neutralidade possível em sociedades fundadas na
desigualdade. Sempre haverá um Shylock à margem, sempre haverá um tribunal
disposto a chamá-lo de vilão para não encarar o próprio reflexo.
Talvez seja por isso que reler
Shakespeare, neste recesso, me pareça menos um gesto de erudição e mais um
exercício de lucidez. Porque a pergunta que O
mercador de Veneza insiste em nos fazer — e que seguimos
adiando — permanece urgente: quando pedimos justiça, buscamos equidade ou
apenas vencer o processo? Se for apenas a vitória, continuaremos encenando a
mesma peça. Com novos cenários, o mesmo texto e um público perigosamente
habituado ao aplauso.
Você se arrisca a ler ou reler O
mercador de Veneza?
sábado, 9 de agosto de 2025
Entre águas calmas e batucadas de raiz: uma roda de samba na Holanda
Fui parar numa roda de samba. Assim, sem planejamento. Convite de amiga, domingo ensolarado, coração meio vazio e agenda idem. Hesitei — eu, que mal decoro uma letra inteira, que confundo sambistas, que sempre acho que samba é para os iniciados, para quem tem no sangue o compasso e nos quadris a licença. Mas, faltando onde ir, fui.
O bar tinha pé direito alto e, do pequeno terraço, se via um dos canais
de Amsterdam. O verão escorria preguiçoso pelas águas, e barcos deslizavam como
se nem tocassem o tempo. Cheguei cedo demais — pontualidade que aprendi aqui, e
que só causa estranheza quando comparada ao desencontro confortável dos
encontros brasileiros.
Na mesa à frente, quatro adolescentes riam com aquele tipo de alegria
que parece não precisar de motivo. Quase arrisquei um comentário, uma
aproximação de língua materna — mas me contive. Entre querer conversar e
parecer intrometida, preferi o silêncio e mais um gole de cerveja.
Foi então
que notei um homem se aproximando deles. Conversavam sobre música, shows. Aí
soube: dois deles eram netos de Martinho da Vila — Dandara e Raoni.
Atrações principais da noite do Roots Samba Amsterdam. A surpresa me
calou por uns segundos. A admiração falou mais alto.
Me atrevi.
— Posso roubar uns minutos e fazer três perguntinhas para um provável
texto?
O sorriso largo de Dandara e a voz acolhedora de Raoni me deixaram
entrar. Ali, no improviso da prosa, ouvi mais do que respostas — escutei o
pulsar de uma juventude que respeita o passado sem abrir mão do próprio passo.
“É uma honra... representamos a terceira geração da família do samba”,
disse Raoni. “Mas queremos seguir com a nossa cara, do nosso jeito.”
É nesse entrelaçar do que foi com o que se quer ser que mora a beleza da
arte deles. Criados nos bastidores do samba, entre ensaios, palcos e blocos de
Carnaval, os dois carregam no timbre e na postura uma naturalidade que vem de
berço. Mas não se escoram apenas no sobrenome. Eles estudam, viajam, ministram
aulas, experimentam.
O samba, para eles, é mais do que música: é modo de viver e de
comunicar. “A espontaneidade do samba é muito nossa também”, completa Dandara.
E quem os vê no palco percebe: não há nada forçado, nem nos gestos nem nos
sorrisos. A alegria é legítima, a troca com o público, sincera.
A conversa seguiu com fluidez. Falaram das vivências internacionais, do
calor de um festival em Portugal, da emoção de ouvir estrangeiros cantar seus
sambas, do aprender com o modo holandês de sambar. “É uma troca constante, uma
energia que recarrega a gente pra seguir firme lá no Brasil”, disseram.
Saí da roda de samba — sim, fiquei até o fim — cantarolando refrões que
nem sabia que sabia. Descobri que talvez o samba estivesse em mim o tempo todo,
guardado entre lembranças de festas de rua, batuques de escola, ou só o eco de
um pandeiro distante em tardes esquecidas.
Mais do que isso: entendi ali que o samba é também um caminho de
identidade. Que cada geração reinventa, mas sem perder o compasso dos
ancestrais. Dandara
e Raoni me mostraram isso sem didatismo — apenas sendo quem são. Talvez essa seja a maior lição: a de que
respeitar a ancestralidade não é repetir o que foi feito, mas continuar a
batida — com alma, com coragem e com swing próprio.
Na volta pra casa, pelas ruas estreitas da cidade, os barcos ainda
balançavam no canal. A noite não tinha pressa, e eu também não. Senti que,
enfim, compreendi o que era sentir o samba — e ele batia suave no meu
peito, como quem agradece a visita.
domingo, 27 de julho de 2025
As Caudas do Encontro
"Vaidade de vaidades, tudo é vaidade_ sopro que passa, orgulho que não permanece."
( Eclesiastes 1:2, com complemento poético)
Luiza chegou ao local do evento com a serenidade de quem conhece o próprio passo. Usava um vestido azul escuro, simples, linhas fluidas; seguia com elegância discreta. Seu olhar percorria o salão com curiosidade genuína. A luz era dourada, os lustres reluziam e, ao fundo, ouvia-se um quarteto de cordas dedilhando suavemente algo que lembrava Debussy.
A recepção a surpeende: garçons impecáveis com bandejas espelhadas, taças tilintando, havia risos bem colocados e, principalmente, fotógrafa atenta aos brilhos. Antes mesmo que Luiza tirasse o casaco, uma lente a mirou com precisão. O clique da câmera disparou, capturando a imagem. O pensamento distanciou-se. Luiza apenas sorriu e seguiu adiante, sentindo-se como um detalhe fora daquela moldura social.
Quando recebeu o convite para o Encontro de Poetas do Sul, sentiu-se honrada. Sabia que sua poesia ainda tateava territórios. Escrevia por pulsão, por necessidade de atravessar silêncios com palavras. Mas nunca se vangloriava por isso.
No salão, começou a conversar com um senhor que se apresentara como escritor performático. Trajava uma roupa iridescente, tecido mutável, que reluzia conforme a luz _ e a vaidade. Iniciaram um diálogo sobre métrica e oralidade, mas Luiza notou que, aos poucos, ele deixava de responder para se ajeitar no espelho de uma coluna. A cada frase dita por ela, ele rebatia com algo sobre si mesmo. Ela comentou a função social do poema; ele respondeu com o número de seguidores nas redes.
Foi nesse momento que Luiza viu, pela primeira vez, a cauda. Uma cauda literal. Rabo comprido, penas vistosas, surgiu às costas dele, como se a vaidade se materializasse em plumagem. Ela piscou, achando ser efeito da luz, as logo percebeu outras pessoas no salão ostentando o mesmo ornamento. Pavões. Surreais, autênticos, impossíveis.
Pavões literários.
Cada um mais colorido, mais largo, mais decorado com brilhos, glitter e palavras flutuantes. A fotógrafa, agora com uma câmera de lentes múltiplas, olhar embriagado, os seguia em espasmos criativos. Os cliques multiplicavam-se. " Nenhuma legenda seria suficiente" , pensava.
Luiza buscava uma interlocução real. Estava ávida de conhecimentos, de trocas... Aproximou-se de uma poetisa cujos poemas conhecia e admirava. Iniciou uma conversa com entusiasmo, mas, à medida em que falava, percebeu que a outra lhe olhava com um misto de compaixão, indiferença. De súbito, outra cauda se abriu. Longa, dourada, ondulando como verso rimado. Competição muda, porém gritante. Não havia a elegância do diálogo. Predominava o diálogo do Eu. Os elogios vazios apenas eram reflexos do que o outro esperava _ e não do que se via, sentia ou lia.
Constrangida, Luiza afasta-se. Interceptada por uma apresentadora do evento que, sem aviso, pediu que ela compartilhasse um poema ao vivo, no microfone, em meio àquela platéia empavonada. Luiza congelou.
Respirou fundo. Aproximou-se do microfone. Sabia de cor dezenas de poemas, sentiu a mudez. A luz a cegava. O silêncio, incômodo. Tentou dizer algo, a voz falhou. A plateia piscava em caudas. Alguns gravavam, outros riam discretamente. Alguém comentou:
_ Ela parecia tão segura.
Luiza desceu do palco devagar. Não chorou. Sentou-se num canto, perto de uma mesa de doces; salivando o amargo, observou: interações, olhares escorregadios, vaidades saltando da pele.
Foi ali, num canto sem cauda, que uma jovem se aproximou. Não tinha adereços nem fala inflamada. Só um caderno nas mãos, olhos ansiosos.
_ Eu a acompanho no blog. Seus textos me fazem pensar. Você escreve de um jeito qque a gente sente junto. Dá vontade de ler mais, de descobrir mais...
Luiza sorriu. Era só isso.
Mais tarde, enquanto saia do evento, já sem luzes nem música, recordou as palavras do Sermão da Montanha: "Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus". E pensou, que ali, entre pavões e silêncios, aprendeu uma nova forma de escrever não com as penas, mas com o voo da alma.
domingo, 25 de maio de 2025
Reflexões sobre confiar, oferecer e o vazio das cadeiras
Preparei tudo com zelo de quem acredita. Não num
milagre, mas no encontro.
Organizei um workshop com o coração exposto. O tema
era daqueles que não cabem em vitrines: a poesia como ferramenta de cura,
como espelho do autoconhecimento, como semente de transformação. Não vendia
fórmulas nem prometia salvação. Só oferecia o que sei fazer com inteireza —
palavras vivas, experiência real, escuta verdadeira.
A proposta havia sido bem recebida em outras terras
— Holanda, Portugal, Brasil. E aqui, mais uma vez, me disseram: “Que
maravilha! Eu vou! Vou chamar mais gente!”
Confiei. Como quem recebe um sim como abraço.
Mas no dia, chegaram apenas três netas — amorosas,
fiéis — e a namorada de uma delas. Só uma no horário. As outras, muitos minutos
depois, como quem ainda assim insiste na delicadeza. E o resto? O resto ficou
no mundo das promessas vazias.
Gente que disse vir. Gente que sorriu, acenou, se entusiasmou. Mas não veio.
Cada uma das ausências trouxe seu motivo: Aniversário do amigo, gripe que derrubou, consulta médica que não deu pra remarcar. Encontro inadiável.
Aceitei.
Sim, aceitei. Porque são justificativas plausíveis,
humanas. Aceitar não elimina o vazio. Não preenche o espaço das cadeiras vazias
nem o silêncio onde esperava vozes. Aceitar não é o mesmo que não sentir.
Onde foi que falhei? Essa
pergunta me atravessou.Teria sido ingenuidade minha confiar nas palavras? Faltou
divulgação mais agressiva? Um banner chamativo? Um sorteio? Ou — como me
disseram — foi o fato de ser gratuito?
Vivemos tempos estranhos. O que é oferecido sem
custo parece não ter valor. Gratuito, dizem, é sinônimo de descartável. Como se preço definisse
profundidade. Como se o afeto e o conhecimento precisassem de etiqueta com cifrão para
merecer respeito.
Há um abismo entre o gratuito e o sem valor. Oferecer
algo sem cobrar é, às vezes, um ato de generosidade, outras vezes, é
resistência. É acreditar que certas partilhas não se compram, se acolhem. É confiar
na reciprocidade do outro. E é aí que doeu mais: na confiança quebrada. Não
foram só cadeiras vazias. Foi o eco de tantas palavras que pareceram verdade e
se desmancharam no ar. A decepção não é pela ausência em si — ela também
ensina. É pela quebra de algo mais íntimo: a fé nas intenções alheias.
Não desisto. Porque ainda acredito. Quero acreditar
nas palavras, nas pessoas, nos encontros.
Este texto não é um desabafo. É um convite. A quem
lê, pergunto: Quantas vezes você acenou com um “vou” sem ter intenção de ir? Quantas vezes deixou de comparecer a algo gratuito porque “não custa nada
mesmo”? Quantas vezes esqueceu que, do outro lado, há alguém esperando — não só sua presença, mas sua escuta, seu compromisso, sua troca?
Quem sabe, da próxima vez, você honre esse convite. Sobretudo se for gratuito. Porque, às vezes, o que é oferecido de graça é o que tem mais valor: a presença, a palavra, o gesto.
A coragem de estar!



