sábado, 25 de julho de 2026

A cabana Encantada

 




 “Ainda escrevo.
Não porque alimente aspirações a ser lido, mas porque há memórias que precisam ser escritas para ganharem coerência e verdade dentro de nós. 
Além disso, escrevo para que o deserto saiba que alguém, nestes tumultuosos dias do fim, amou loucamente toda a sua insubmissa imensidão”
                                                                                     Agualusa, José Eduardo

Estava feliz com a plateia que me rodeava.
Já havia lido um trecho do meu livro, A Pedra e o Vento, falado sobre meu processo criativo e pincelado algumas histórias sobre os personagens. Estava pronta para responder às perguntas.
A jovem de óculos redondos e ares de intelectual levantou a mão.
— Por que a senhora escreve?
Era uma pergunta simples.
Ou deveria ser.
Senti a garganta secar. Um gosto de folha velha invadiu minha boca.
A pergunta da moça abriu uma caixa antiga.
De súbito, eu tinha treze anos outra vez.
Senti o cheiro da minha mãe.
Vi a cabana erguida no quintal com seus lençóis floridos. O tapete macio onde eu me deitava cercada pelos meus companheiros mais fiéis: os livros.
Outra lembrança se interpõe. A professora caminhava entre as carteiras.
Minha caneta rodopiava entre os dedos.
Lembro-me de ter pensado que, daquela vez, ela queria realmente nos lascar.
Na folha do caderno havia apenas uma pergunta:
— Por que eu escrevo?
Isso lá era tema para uma redação?
Olhei para a pequena fresta do lençol e vi o céu em miríades de tons de azul.
Miríade.
Gostava daquela palavra.
Gostava de palavras esdrúxulas.
Gostava daquela cabana.
Gostava da sensação de que, ali dentro, eu era outra pessoa.
A cabana feita com os lençóis da minha mãe. A colcha, tecida no tear da tia Elda, servia de tapete. Os travesseiros espalhados, com suas fronhas desemparelhadas, pareciam as ilustrações dos livros que eu lia.
Ali eu era rainha.
Era viajante.
A soberana de um deserto inventado.
Por que eu escrevo?
Escrevo porque leio.
Leio tanto que, às vezes, sinto a cabeça querendo transbordar. As palavras entram por mim e depois procuram uma saída.
Cecília Meireles era doce como mel.
Vinicius de Moraes falava de amor como quem conhecia todos os seus segredos.
Clarice e Fernando Pessoa com seus heterônimos me confundiam e encantavam.
Havia tantos outros: Ernest Hemingway, Milan Kundera, Steinbeck...
Nunca me sentia sozinha quando estava com eles.
Suas palavras, frases e sentimentos iam me alimentando, preenchendo vazios que eu nem sabia nomear.
Também gostava da expressão dos meus colegas quando descobriam que eu já havia lido livros que eles sequer conheciam.
A Moreninha. Senhora. Vidas Secas. O Ateneu.
Eles me testavam de forma maldosa.
— Você leu mesmo?
Claro que li.
Enquanto muitos estavam na quadra ou nas aulas de Educação para o Lar, eu me escondia na biblioteca.
Apreciava o silêncio.
O cheiro dos livros.
A promessa de vida escondida atrás de cada lombada.
Na cabana, rolava sobre as almofadas coloridas, abria o caderno e escrevia.
Escrevia porque sentia dores no coração que não sabia explicar.
Escrevia porque era medrosa.
No papel, as palavras possuíam a coragem que me faltava.
Escrevia para me exibir também.
Queria que me olhassem e não percebessem as espinhas, os óculos baratos ou o cabelo rebelde.
Desejava que enxergassem a menina que conhecia histórias, visitava mundos distantes e que sabia coisas que os outros ignoravam.
Lia porque queria conhecer lugares onde nunca estivera.
Sentir emoções que ainda não vivera.
Vestir a pele das heroínas.
Escapar, por algumas horas, da vida que me cercava.
Lembro-me de ter terminado a redação com a convicção absoluta que só os adolescentes possuem:
"Escrevo porque um dia vou empunhar esta caneta e me tornar uma feiticeira das palavras."
O clarão de um flash me trouxe de volta.
A plateia continuava ali.
Cadeiras ocupadas.
Livros empilhados sobre a mesa.
A jovem ainda me observava, aguardando a resposta.
Peguei o copo com água.
Sorvi o gole gelado.
Sorri.
Talvez eu tivesse levado a vida inteira para responder aquela redação.
Então ergui os olhos para a moça e respondi:
— Escrevo porque um dia uma menina construiu um reino com lençóis no quintal de casa e descobriu que as palavras também podiam ser moradia.




quarta-feira, 15 de julho de 2026

A Porta Entreaberta



                                                    

 A viagem no tempo é solitária e silenciosa: quanto mais avançamos, menos somos vistos por aqueles que ficam para trás.


Dona Alzira tinha aprendido a envelhecer em silêncio. Um talento adquirido devagar, silencioso. Os filhos a visitavam aos domingos, os netos às vezes a beijavam na testa antes de mergulharem novamente nas telas luminosas dos celulares.

Sorria, servia bolo, recolhia as migalhas. 

Enquanto os sons iam e vinham pela casa, percebia algo estranho — parecia que sua presença ecoava menos a cada semana.

Aos setenta e oito anos, descobrira que a invisibilidade não chegava como um ataque, mas como uma névoa. Primeiro, deixavam de perguntar sua opinião. Depois, não notavam seu esforço. Por fim, deixavam de vê-la. E ela, que sempre fora uma mulher firme, começou a acreditar que talvez fosse natural desaparecer assim — desaparecendo numa sombra escura.


Memórias da desaparição


Lembrou-se da primeira vez em que sentira essa sombra crescer: estava numa festa de aniversário da família, quando ouviu um dos netos perguntar quem havia feito a maionese. 

— Foi a vovó! — respondeu orgulhoso um dos filhos. 

Antes que pudesse sorrir, alguém acrescentou: 

— Ah, ela sempre faz, nem precisa agradecer — Todos continuaram conversando como se ela fosse apenas parte do mobiliário, algo útil, estável, silencioso.

Outra lembrança emergiu: uma ida ao médico. Na sala de consulta, o doutor falava apenas com a filha mais velha — sobre os exames, remédios, dores que ela 

mesma descrevera momentos antes.  A palavra de Dona Alzira tornou-se descartável,

ou, pior, inexistente. Sentiu a estranha experiência de estar presente no próprio corpo e, ao mesmo tempo, excluída de qualquer autoridade sobre ele.

Havia, também, a situação no supermercado. Estava na fila, apoiada no carrinho, quando um homem mais jovem, sem sequer olhar em sua direção, passou na sua frente como se ela fosse ar transparente. Quando protestou, num fio de voz, ele apenas fez um 

gesto vago com a mão — algo entre desculpa e incômodo — e continuou. Os outros na fila desviaram os olhos, não por maldade, mas pelo desconforto de testemunhar uma injustiça que ninguém queria admitir.

O episódio que mais a marcou ocorreu dentro de sua própria casa. A família estava reunida para o almoço de Páscoa. As conversas iam animadas na mesa, passando por eleições, séries, viagens, promoções de emprego. Em determinado momento, ela tentou contar uma história antiga, da época em que os filhos eram pequenos e moravam num apartamento minúsculo. Abriu a boca, respirou para começar e, antes que dissesse a primeira frase, alguém mudou de assunto. Sua história ficou suspensa no ar, um pássaro que perde o impulso e cai sem nunca ter voado.

Ela sorriu para disfarçar, mas naquele instante percebeu que já não eram apenas os outros que deixavam de ouvi-la — ela mesma começava a duvidar se tinha algo a dizer.


O reencontro


Então reencontrou os livros.

Começou por um volume empoeirado de Clarice, que encontrara atrás das toalhas de mesa. As palavras a envolveram — ainda lhe serviam, ainda a aqueciam. Depois veio outra leitura, outra, outra. Cada página parecia devolver-lhe um pedaço que ela não sabia ter perdido.

Mas o verdadeiro abalo veio numa tarde em que, ao sair para pagar uma conta no centro, Dona Alzira entrou por impulso na pequena biblioteca municipal. A porta estava entreaberta. 

Um cartaz escrito à mão anunciava: “Sarau de Iniciantes — traga sua voz.

Sua voz.

A última vez que alguém lhe pedira isso, um dos filhos ainda usava aparelho nos dentes.

Sentou-se perto da janela, ouvindo as pessoas declamarem pequenos poemas, textos tímidos, fragmentos de memórias. Mãos tremiam, gargantas falhavam — mas ali 

todos pareciam ser vistos. Todos tinham um lugar na roda. Inclusive ela.

Quando a mediadora perguntou se mais alguém gostaria de ler, um silêncio leve invadiu a sala. Dona Alzira sentiu o coração bater fundo, como se despertasse de uma longa dormência. Lembrou das palavras que rabiscara durante a madrugada, num caderno velho: pensamentos soltos sobre solidão, sobre o que é permanecer quando o mundo já segue adiante.

Por um instante, pensou em levantar a mão.

Pensou em dizer “eu”.


sábado, 14 de fevereiro de 2026

O Catetinho não está em ruínas — está em silêncio. E esse silêncio acusa.

    

                                                 


        

Chega-se ao lugar como quem se aproxima de um capítulo vivo da história nacional: a primeira residência presidencial de Brasília, símbolo de improviso, decisão política, pressa desenvolvimentista, promessa de futuro. Madeira erguida no meio do cerrado como gesto de coragem e projeto. Mas basta atravessar a porta para perceber que a narrativa oficial não resiste ao cheiro de mofo.

As rachaduras falam. O pó fala. Os cantos escurecidos falam. A higiene descuidada é uma forma de discurso — talvez o mais honesto — sobre o valor que damos à memória. Não é apenas desgaste material: é abandono simbólico. É pedagogia negativa. O que se ensina ali, sem palavras, é que o passado serve para fotografia institucional, não para preservação contínua.

Dizer que falta interesse seria uma análise preguiçosa. Os turistas continuam chegando. Observam, leem as placas desbotadas, caminham em volta do prédio histórico. Mas os rostos mudam durante o percurso. A expectativa inicial se dissolve em decepção contida. Não é desinteresse do público — é desalento diante do desleixo. A apatia no atendimento, o tratamento burocrático de quem guarda — mas não protege — transforma patrimônio em repartição cansada.

O Catetinho não é apenas uma construção antiga. É documento político em forma de arquitetura. Representa um momento de inflexão do regime, um marco da economia desenvolvimentista, um gesto de fundação. Ali se concentraram decisões, conflitos, estratégias e sonhos que moldaram o país moderno. Quando a manutenção falha, não é a madeira que cede — é a narrativa histórica que apodrece.

E, paradoxalmente, o entorno permanece generoso. A paisagem oferece frescor, sombra, ar limpo, um convite à pausa. Um pequeno oásis que ainda cumpre sua função estética e reflexiva. A natureza resiste melhor do que a administração.

O problema não é falta de verba apenas — é falta de cultura de preservação. Somos a civilização da inauguração. Amamos a fita cortada, o discurso, a placa de bronze. Depois, abandonamos. Preferimos o espetáculo do novo ao compromisso da manutenção. Construímos para aparecer, não para durar. O ciclo é conhecido: pompa, foto, esquecimento, ferrugem.

Essa negligência não é neutra. Ela educa o eleitor, distorce a memória coletiva e prepara o terreno para escolhas enganosas. Quem não preserva o passado não avalia o presente com rigor. Sem memória cuidada, a crítica perde referência.

Que os ventos da responsabilidade soprem — sobre a comunidade, sobre a secretaria de turismo, sobre o governo do Distrito Federal. Preservar é um ato político de longo prazo. É gestão, técnica, respeito.

Manutenção não é detalhe: é ética pública aplicada à matéria.

Porque um país que não conserva seus marcos não constrói futuro — apenas repete esquecimentos.

Viva a memória.



Foto: Carol Vieira/CC BY-SA 4.0

https://pt.wikipedia.org/wiki/Catetinho