“Ainda escrevo.
Não porque alimente aspirações a ser lido, mas porque há memórias que precisam ser escritas para ganharem coerência e verdade dentro de nós.
Além disso, escrevo para que o deserto saiba que alguém, nestes tumultuosos dias do fim, amou loucamente toda a sua insubmissa imensidão”
Agualusa, José Eduardo
Estava feliz com a plateia que me rodeava.
Já havia lido um trecho do meu livro, A Pedra e o Vento, falado sobre meu processo criativo e pincelado algumas histórias sobre os personagens. Estava pronta para responder às perguntas.
A jovem de óculos redondos e ares de intelectual levantou a mão.
— Por que a senhora escreve?
Era uma pergunta simples.
Ou deveria ser.
Senti a garganta secar. Um gosto de folha velha invadiu minha boca.
A pergunta da moça abriu uma caixa antiga.
De súbito, eu tinha treze anos outra vez.
Senti o cheiro da minha mãe.
Vi a cabana erguida no quintal com seus lençóis floridos. O tapete macio onde eu me deitava cercada pelos meus companheiros mais fiéis: os livros.
Outra lembrança se interpõe. A professora caminhava entre as carteiras.
Minha caneta rodopiava entre os dedos.
Lembro-me de ter pensado que, daquela vez, ela queria realmente nos lascar.
Na folha do caderno havia apenas uma pergunta:
— Por que eu escrevo?
Isso lá era tema para uma redação?
Olhei para a pequena fresta do lençol e vi o céu em miríades de tons de azul.
Miríade.
Gostava daquela palavra.
Gostava de palavras esdrúxulas.
Gostava daquela cabana.
Gostava da sensação de que, ali dentro, eu era outra pessoa.
A cabana feita com os lençóis da minha mãe. A colcha, tecida no tear da tia Elda, servia de tapete. Os travesseiros espalhados, com suas fronhas desemparelhadas, pareciam as ilustrações dos livros que eu lia.
Ali eu era rainha.
Era viajante.
A soberana de um deserto inventado.
Por que eu escrevo?
Escrevo porque leio.
Leio tanto que, às vezes, sinto a cabeça querendo transbordar. As palavras entram por mim e depois procuram uma saída.
Cecília Meireles era doce como mel.
Vinicius de Moraes falava de amor como quem conhecia todos os seus segredos.
Clarice e Fernando Pessoa com seus heterônimos me confundiam e encantavam.
Havia tantos outros: Ernest Hemingway, Milan Kundera, Steinbeck...
Nunca me sentia sozinha quando estava com eles.
Suas palavras, frases e sentimentos iam me alimentando, preenchendo vazios que eu nem sabia nomear.
Também gostava da expressão dos meus colegas quando descobriam que eu já havia lido livros que eles sequer conheciam.
A Moreninha. Senhora. Vidas Secas. O Ateneu.
Eles me testavam de forma maldosa.
— Você leu mesmo?
Claro que li.
Enquanto muitos estavam na quadra ou nas aulas de Educação para o Lar, eu me escondia na biblioteca.
Apreciava o silêncio.
O cheiro dos livros.
A promessa de vida escondida atrás de cada lombada.
Na cabana, rolava sobre as almofadas coloridas, abria o caderno e escrevia.
Escrevia porque sentia dores no coração que não sabia explicar.
Escrevia porque era medrosa.
No papel, as palavras possuíam a coragem que me faltava.
Escrevia para me exibir também.
Queria que me olhassem e não percebessem as espinhas, os óculos baratos ou o cabelo rebelde.
Desejava que enxergassem a menina que conhecia histórias, visitava mundos distantes e que sabia coisas que os outros ignoravam.
Lia porque queria conhecer lugares onde nunca estivera.
Sentir emoções que ainda não vivera.
Vestir a pele das heroínas.
Escapar, por algumas horas, da vida que me cercava.
Lembro-me de ter terminado a redação com a convicção absoluta que só os adolescentes possuem:
"Escrevo porque um dia vou empunhar esta caneta e me tornar uma feiticeira das palavras."
O clarão de um flash me trouxe de volta.
A plateia continuava ali.
Cadeiras ocupadas.
Livros empilhados sobre a mesa.
A jovem ainda me observava, aguardando a resposta.
Peguei o copo com água.
Sorvi o gole gelado.
Sorri.
Talvez eu tivesse levado a vida inteira para responder aquela redação.
Então ergui os olhos para a moça e respondi:
— Escrevo porque um dia uma menina construiu um reino com lençóis no quintal de casa e descobriu que as palavras também podiam ser moradia.

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