segunda-feira, 14 de abril de 2014
Transparência
Sábado preguiçoso.
Olho pela imensa janela.
Ruas vazias. Silêncio.
O sol brilha lá fora.
Um convite à vida, mas minha inércia é maior...
Sei que o frio ainda permanece trespassando as ruas, canais e vielas...
E é dele que fujo.
Aquecida em meu refúgio,
vou deixando as horas passarem olhando através da janela...
Admirando os poucos ciclistas e corredores amadores que transitam espaçadamente.
Admito minha covardia!
Não participo da vida, sou expectadora...
Invejo a comédia, mas vivo dramatizando...
Admiro as pinturas. Não desenho e nem pinto. Escrevo?!
Sou menos da metade do que queria e do que desejei ser...
Sou a outra... Aquela que sonha viver!
Em um inexplicável ímpeto: troco de roupa e saio para correr.
Adeus!
Foto: Onofra Lúcia
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Retratos de uma família
Não sei se são as condições climáticas, o aconchego da língua e dos costumes ou, simplesmente, o doce prazer de me sentir em casa com os meus familiares, que me fez abandonar-me nesta preguiça morosa. Deixei de escrever...
Estava matando saudades de relações antigas, de carinhos represados, de conversas travadas...
Descobrindo sentimentos escritos e livros esquecidos...
Nas minhas buscas encontrei uma agenda de 2009 e antes de jogá- la fora decidi folhear...
Velhas anotações do dia a dia, telefones de pessoas que passaram por minha vida, compromissos cumpridos, outros adiados indefinidamente... Poemetos iniciados... O lote comprado em Anápolis, no valor de R$ xyz e mais outros tantos R$ xyz de despesas com aterramento, prestações da faculdade do filho e outras tantas miudezas gastas ... E, ainda, um desabafo, que inicia assim...
"Quero chorar as pitangas! Quero colo de pai, uma vez que mãe não tenho mais...
Mas de que adianta?! Ele jamais soube me confortar...
Tive sonhos de família. De família reunida...
De família que ri, chora, se conforta e se felicita juntos.
Não consegui construir esta família.
Fui incapaz de manter a união...
Primeiro o divórcio, depois, uma segunda união, que, na verdade, acabou por afastar meus filhos.
Não soube lidar com as necessidades deles e as minhas...
Com as inseguranças deles e as minhas...
Com as carências deles e as minhas...
E nesta difícil tarefa de buscar a minha felicidade e querer a deles, acabei atropelando-os.
Reclamam da minha insatisfação para com eles; na minha leitura, não é insatisfação.
É um desejo de que eles aproveitem melhor o potencial que eles têm.
Há mágoas das minhas alfinetadas, não as considero assim...
Mas alertas de que eles podem fazer mudanças para melhor...
Acredito nisto, porque sei da capacidade de cada um.
Pontos de vista diferentes...
Comunicação danificada...
Família separada...
Uma perda irreparável.
Uma vida vazia, inútil...
Sem construção positiva."
Hoje, vejo que o tempo é o grande remédio.
Estamos todos bem.
Vamos ainda ter algumas situações, talvez até difíceis, mas consegui vê- los adultos e amadurecidos...
Agora, com suas respectivas famílias, são eles que vão iniciar suas escolhas e buscas em relação aos filhos. Cabe a eles escolherem as estradas que vão trilhar e quais os métodos usar...
Tomara, eu tenha, apesar de tudo, contribuído com coisas positivas, das quais eles possam se orgulhar.
Porque eu sempre tive muito orgulho de cada um deles.
Esperava, apenas, que eles encontrassem seus próprios caminhos...
O meu grande erro foi não saber que cada um tem o seu ritmo, o seu tempo, as suas escolhas...
O texto de Bruna Ferreira, Primavera, externa de forma simples e muito bonita esta minha compreensão do momento:
Agora entendo melhor ao que Rilke se referia quando dizia "serenidade".
As tempestades passaram, como sempre têm passado desde que o mundo é mundo, e hoje veio o sol iluminar a beleza que só foi possível graças à chuva das semanas passadas."Aprendo isto diariamente, aprendo em meio as dores às quais sou grato:paciência é tudo!"
Obrigada, meu Deus, pela minha família!
Um beijo no céu, mãe querida!
Foto: Lucia Boonstra
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
O Tédio das Notícias e o Pênis
À noite, depois dos afazeres domésticos, uma curta conversa com a amiga ao telefone, a corrida até o médico para exames de rotina, posso finalmente relaxar a frente da tv e ler um pouco... Parece estranho para você?
Sempre cultivei este hábito. Gosto de ler, ouvindo o desfile das vozes na televisão. Quando algo me chama a atenção, paro e procuro sair das minhas aventuras livrescas e conectar-me com a realidade transmitida.
E devo confessar que nem sempre isto é bom.
Meu marido, no escritório, munido com os fones de ouvido, faz o mesmo. Conecta-se com o jornal NOS, da Holanda.
Fecho o livro, A Pequena Ilha, de Andrea Levy, para assistir o noticiário...
Desfile de acidentes nas estradas, com mortos e feridos provocados pela embriaguez, pela irresponsabilidade dos motoristas, mazelas e descaso dos governantes nos vários setores públicos, mais um escândalo de propina...
Nada é diferente! Até mesmo os autores de alguns crimes e contravenções são os mesmos...
Novidade mesmo são os "rolezinhos" que dividem opiniões de políticos e até mesmo as nossas, meros pacatos cidadãos. E, para completar, o nosso secretário adjunto de Segurança Pública nos reduz a "zés e marias". Sem direitos e sem maiúsculas...
Não nos damos a chance de nenhum questionamento ou discussão. Apenas aqui e ali, via facebook, exprimimos nossa indignação com o comportamento destes jovens "arruaceiros", que invadem um dos nossos poucos espaços que consideramos seguro; os shopping centers!
Estou tão indignada como qualquer outro!
Gosto também de perambular pelos shoppings nas segundas-feiras, quando tudo está com aquele ar moroso de ressaca de fim de semana.
Mas, por outro lado, procuro refletir sobre as palavras de Wagner Iglecias e Rafael Alcadipani, quando eles afirmam que essa garotada que hoje tenta frequentar os shoppings, " cresceram ouvindo dia e noite que política é coisa ruim e que o sucesso é conquista individual".
Portanto, o que eles procuram é uma auto-afirmação através do consumo e do uso de produtos de marcas que, atualmente, determinam o sucesso e o status na sociedade...
E aí lembro das minhas netas que conhecem as marcas da moda... Lembro do bebê, que ainda de fraldas, no consultório médico brincava com seu tablet... Com certeza sou de uma outra geração!
Falham as políticas públicas, que deixam nossas crianças e jovens ao Deus dará...
Com uma boa educação, talvez estes jovens concluiriam que, melhor seria, se tivessem acesso a teatros, cinemas, bibliotecas modernas, museus interativos, centros esportivos e de lazer ao invés destes ocos templos de consumo, ainda usando as palavras de Iglecias e Alcadipani.
Meu marido vem até a sala. Enquanto estou ali, indignada e ensimesmada, ele está leve e sorrindo... Na NOS, o noticiário terminou.
Informaram sobre os comitês da União Européia, a insatisfação de alguns tantos pela admissão de outros países, um pequeno acidente envolvendo um carro e uma bicicleta e tantas outras notícias menores... Porém, a notícia culminante foi sobre uma altercação entre o presidente de uma associação de pescadores (esporte muito comum na Holanda) e a senhora, Nanka Van de Meer, ambos residentes em Woudrichem.
O motivo do imbróglio é o estatuto que apresenta regras claras para quem pode pescar na cidade e nas suas adjacências:
- Ter a permissão de pesca. A senhora Nanka possui.
- Residir por no mínimo um ano na cidade de Woudrichem. A sra Nanka reside lá há exatamente um ano.
- Possuir um pênis. A senhora Nanka nasceu desprovida deste apêndice!
A referida senhora, de acordo com o prefeito, que apóia o presidente da associação, pela falta deste pequeno detalhe, fica impedida de pescar com o seu marido... Isto se o ministro não tivesse decidido a questão.
Nos Países Baixos , logo após a Segunda Guerra Mundial, observou-se que muitos jovens estavam agindo de forma violenta e vandalizando os bens privados e públicos. Implantaram centros esportivos e de lazer, oferecendo varias modalidades esportivas e entretenimento direcionado; aliado a uma fiscalização, que previa a cobrança de multas aos pais dos infratores, que causassem danos ao patrimônio público ou privado.
Talvez, por isto os "rolezinhos" não chegaram por lá e, com a certeza de não ser apenas uma "maria" é que, a senhora Nanka deve estar neste momento pescando calmamente ao lado do companheiro...
Portanto prefiro o tédio das notícias de lá...
Talvez, por isto os "rolezinhos" não chegaram por lá e, com a certeza de não ser apenas uma "maria" é que, a senhora Nanka deve estar neste momento pescando calmamente ao lado do companheiro...
Portanto prefiro o tédio das notícias de lá...
Foto: Página de Marcos Silvério http://ibopetvnews.blogspot.com.br/2010_05_01_archive.html
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Ele, o ano, muda e você?
Já estamos em um novo ano! Os fogos já se apagaram e a ressaca já foi curada... Hora de refazer planos ou simplesmente prosseguir os já iniciados, mas sem perder aquele gostinho de estar iniciando...
Quando eu ainda traçava metas, deixei claro que por algum tempo "deixei a vida me levar", fazia isto sempre depois dos três primeiros dias do ano. Era uma forma de elaborá-las com mais clareza; sem os atropelos e a euforia tão comuns das festas de fim de ano.
Posso dizer que sempre funcionaram. Eram metas simples, como uma nova pintura na casa, a compra de um armário novo, uma mudança no estilo de trabalho, uma pequena viagem e assim por diante... Para não esquecê-las pregava-as na porta do guarda-roupa e quando realizava alguma delas, seguia o conselho das "psico auto ajuda"; me presenteava com um bom pedaço de torta ou comprava uma peça de roupa para mim.
Lembro de quando instalaram meu primeiro guarda-roupa embutido; expressão caduca!... Uma parede inteira de portas. A última dava acesso ao meu banheiro privativo.
Sentei na cama e fiquei admirando aquelas portas amadeiradas, desenhadas com pequenos filetes... Tudo era espaçoso! As portas largas fechavam acomodando meus pertences e meus sonhos... Tão simples, mas tão prazeroso! Foi há muito tempo...
Fiquei mais exigente. E, com o tempo, fui deixando de apreciar estas e tantas outras pequenas grandes aquisições. Me perdi literalmente me "pré-ocupando" com aqueles ao meu redor... Me esqueci!
Mas a vida é feita de ciclos e portanto, é hora de dar adeus a este e recomeçar um outro... E neste iniciar quero, sem medo de cair na mesmice de tantos, agradecer... Mesmo sem metas estabelecidas tive muitos bons momentos... Pessoas que se despediram para sempre, mas pessoas que também chegaram... Tristezas que foram amenizadas com as alegrias intercaladas... Posso dizer que cresci um pouco mais... Vivi!
E decidi voltar ao velho hábito...
Ainda é tempo de fazer planos e trabalhar para concretizá-los...
Teclado posicionado...
Escolhas e decisões. Quero estabelecer metas plausíveis... Podem ser pequenas, mas que sejam prazerosas e possíveis. Quero também cimentar algumas atividades iniciadas em 2013:
1- Pedalar mais.
2- Cantar mais.
3- Ler e escrever muito mais.
4- Viajar mais, mesmo que seja para dentro de mim...
5- Exercitar a leveza no dia a dia, buscando aliar liberdade e interação do estar.
E acrescentar as novas...
6- Vender a nossa casa, abrindo espaço para escolher onde o futuro irá acontecer.
7- Iniciar um trabalho agradável, com a certeza de ser útil.
8- Estreitar laços de amor e harmonia com familiares e amigos.
9- Cuidar da minha fé cristã.
10- Cultivar alegrias e...
Deixar um espaço vazio, para dar chance ao inesperado, à novidade, ao presente que se instala sem ser convidado. Ah! Como ...
Eu quero tantas coisas...
São tão difíceis de enumerar
Mas com certeza, todas elas,
Nas minhas mãos hão de chegar!
E para elas alcançar,
Devo, com cuidado, cada uma analisar,
Trabalhando prazos e estratégias
Que realmente vão ajudar !
Querer é sonhar! Por isto, é importante:
Todos os dias, as metas visualizar!
Mas tenha a certeza
De que é preciso,
Com empenho trabalhar,
Para ver os seus sonhos
Assim se concretizar!
A rima pode ser pobre, mas a mensagem é rica.
Feliz 2014 e, ainda é tempo de fazer ou refazer suas metas... Sucesso!
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
Árvores e Primas
Ao contrário do grande José Saramago, sempre tive aquela curiosidade, não mórbida, mas vívida, pelos ramos e galhos da chamada árvore genealógica. Ela valida a história da nossa existência. E somos assim, estamos sempre a procura de sermos validados.
As árvores, da botânica, sempre me chamaram à atenção. Tenho ainda a intenção de fazer uma exposição de fotos de árvores, mas isto não vem ao caso, no momento. Elas, as árvores, sempre me transmitem segurança. Quer pelas sua raízes, pelos seus troncos ou, talvez, pela capacidade, de muitas delas, espalharem seus galhos.
Sem explicação! Apenas o sentimento...
Gosto de árvores!
Daí por que não gostar da árvore genealógica?!
Mesmo não fazendo parte da Botânica, a inspiração que ela me proporciona é a mesma: segurança! Está relacionada com origem, família, raízes... E como você espalha seus galhos...
Quando olhava meu avô paterno me perguntava de onde vinha aqueles olhos castanhos tão claros. Os cabelos quase loiros completavam a perfeição do rosto tranquilo. De hábitos muito simples e sorriso discreto, poderia ele ter sua origem em uma família espanhola ou portuguesa. Mas ele partiu sem que eu pudesse esmiuçar seus segredos de origem... Perdi a oportunidade de colher as pérolas das suas histórias, dos seus causos, das suas lembranças...
Ao contrário do meu avô materno, que era, sem dúvida alguma, descendente de um cafuzo. Contava ele, que o meu tataravô negro, havia capturado uma índia e tomado- a como sua companheira. Fincados em um sítio, nas bandas do Triângulo Mineiro, criaram seus filhos e viram crescer seus descendentes. Em contrapartida, meu avô casou-se, com certeza, com uma moça de linhagem européia. Ela não era loira, mas tinha cabelos, olhos e tez tão claros que seu nome era Ana Clara.
Com esta miscigenação tão evidente, sempre foi intrigante observar as diferentes fisionomias dos meus tios e tias. Parte deles, com traços explicitamente europeus ou indígenas; enquanto outros não negavam a descendência negra; quer pela cor da pele ou pelos cabelos quase pixains... Alguns de estatura baixa, outros medianos e havia aqueles bastante altos. E cá estou eu, fruto de toda esta mistura!
Saramago em sua crônica Retratos de Antepassados, afirmava não dar importância a genealogia , defendia que "...cada um de nós é, acima de tudo, filho das suas obras, daquilo que vai fazendo durante o tempo que cá anda."
É uma grande verdade! Por sinal, uma grande responsabilidade. Mas, devo admitir, que mesmo assim, acredito ainda na tal da árvore. Se ela não me dá traços de caráter dos antepassados, sei que me presenteia com os traços físicos que carrego comigo. E isto me fascina!
Pensar que estes dedos, que dedilham o teclado, poderiam ser confundidos com os de uma avó distante, que ensaiou escrever poemas com uma caneta de pena... Meus cabelos rebeldes e ondulados são frutos de um casamento que aconteceu há dois séculos atrás...
Curiosos galhos... Fascinantes ramos...
Curiosos galhos... Fascinantes ramos...
E foi na tentativa de preservar e aproximar estes ramos que promovi um "picnic" com primas paternas.
E foi gratificante! Descobri que não somos mais ramos. Nos fortalecemos. Fomos galhos... mas o tempo e as experiências vividas fizeram de nós, em sua grande maioria, troncos...
Estamos espalhando nossos pequenos galhos...
Temos amparando muitos em nossas sombras e nossos frutos têm alimentado tantos outros. Ou bem ou mal, estamos tentando cumprir nossa missão. Procurando acertar nas nossas responsabilidades, mas sem perder o prazer de dançar ao sabor dos ventos que sopram em nossas vidas.
Neste encontro, compartilhamos sabores doces, amargos, salgados e, alguns, até azedos... Trocamos confidências, dúvidas e certezas, mas principalmente, trocamos energia!
Ficou a certeza da alegria do encontro e a esperança de um novo, com cestas e toalhas xadrezes!
Como o ano está findando, por pura imaginação dos homens, desejo a todas as árvores, galhos e ramos muita saúde, com fertilizantes de amor sincero, de respeito, de carinho e perdão. E lembrem-se das palavras de Saramago:"...cada um de nós é, acima de tudo, filho das suas obras, daquilo que vai fazendo durante o tempo que cá anda."
Imagem: Google.
Imagem: Google.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Outono lá...Pitangas aqui!
Sempre escrevi pelo prazer de fazê-lo. Sou to tipo que gosta de expressar idéias, sentimentos, acontecimentos... Necessidade de compartilhar...
Criada, quase sempre sozinha, os livros e os cadernos sempre foram meus amigos. Escrevia como forma de dialogar comigo. E foi assim durante muitos anos.
Demorei a mostrar meus rabiscos para os mais próximos. Gostaram ou fizeram que...
Depois veio a era digital... E aqui estou eu tentando aprender...
Espalhando meus rabiscos em um blog... Pessoas desconhecidas lêem meus textos e, alguns, me cobram assiduidade.
Me veio a ansiedade de cumprir expectativas...
Você já experimentou escrever? Não estou mencionando escrever para alguém. Mas você já experimentou escrever para você, sobre você ou mesmo imaginar um certo você...
Tenho certeza que alguns já fizeram isto há muito tempo, em um diário... Coisa do passado!...
Já há alguns dias, sento e tento escrever, mas não sou disciplinada o suficiente para isto...
Vou lavar a louça ou simplesmente colher as pitangas vermelhinhas que teimam em cair do pé.
Queria que elas resistissem até o Natal, assim nem precisaria enfeitar nenhuma árvore para o Papai Noel.
Ela estava muito mais bonita! Agora não mais, colhi quase todas...
Ela estava muito mais bonita! Agora não mais, colhi quase todas...
Se Drumond já afirmava que escrever é um ato triste e de luta, imagine para mim!
Quando não sinto aquela cócega cerebral, fico vasculhando pelas palavras e elas terminam me decepcionando... E novamente me vêem as palavras de Drumond:
"...O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida.
Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina."
Por isto não me cobrem assiduidade.
Quero e gosto de escrever... Gosto das palavras, gosto de brincar com elas...
Elas são como folhas de plátano no outono.
Mudam de cor! São camaleoas!
Antes verde, depois vermelhas enferrujadas e em seguida amarelas...
E todas elas, misturadas, multicolores, vão desprendendo-se das árvores e sendo levadas pelo vento... Quando cansam de voar, pousam suavemente e carpetam o caminho até desintegrarem-se...
Palavras que enfeitam e adubam idéias, pensamentos, até mesmo atitudes...
Sinto inveja daqueles que, disciplinadamente, sabem combiná-las criando verdadeiras tapeçarias literárias; alguns textos, parecem um pomar no paraíso, são saborosos...
Clarice Lispector disse uma vez que "Expressar-me por meio de palavras é um desafio. Mas não correspondo à altura do desafio. Saem pobres palavras."
Vou seguindo adiante, acreditando que minhas pobres palavras, uma vez ou outra, quando elas invadem meus pensamentos e criam verdadeiros redemoinhos para saírem, possam encontrar terra fecunda em alguns leitores.
Sem pretensões de mudanças, mas apenas de um desabrochar...
E, se você decidir experimentar este desafio, volte a escrever seu diário.
Você verá que tem uma história e tanto para contar...
Foto: Lúcia Boonstra
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Sharing
Em um post anterior afirmei que gosto desta palavra: Sharing... O som é sonoro e o significado mais interessante ainda... Compartilhar... Com você, vou partilhar. E, é com muito prazer, que compartilho este delicioso e perfumado texto escrito por Ana Martins, que gentilmente permitiu que eu o trouxesse até vocês.
Almas Perfumadas
Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.
Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.
Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.
Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo nosso corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.
Costumo dizer que algumas almas são perfumadas, porque acredito que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Meu avô era alguém assim. Ele perfumou muitas vidas com sua luz e suas cores. A minha, foi uma delas. E o perfume era tão gostoso, tão branco, tão delicado, que ele mudou de frasco, mas ele continua vivo no coração de tudo o que ele amou. E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios desse perfume de Deus.
Ana Martins,
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