quarta-feira, 22 de março de 2023

A viagem




                                                                                       

 Tenho 66 anos vividos. Quantos ainda me restam? Não sei. 
 Sou filha de um casal de mineiros que traziam preconceitos bem arraigados dentro de si. Embora, minha mãe fosse mais aberta, não posso dizer que ela era uma rebelde da sua geração. Seguindo-lhes os passos, também me tornei uma pessoa pacata e conformada com os valores e preconceitos recebidos.
 Lembro-me que nos primeiros anos de escola, as carteiras duplas eram ocupadas por duas meninas ou por dois meninos. E as filas de meninos e meninas eram separadas. Quando um de nós extrapolávamos as regras do professor, éramos levados a ficar de pé de frente para o quadro negro. Depois éramos levados a sentar com o sexo oposto. Para as meninas e, para alguns meninos também, aquilo gerava um constrangimento absurdo. Imagina sentar com um menino! Jamais me arrisquei a passar por tal situação! Por favor, não sorriam... 
 Na década de 70, enquanto todas as adolescentes paravam, aos sábados à tarde, em frente à tv, para assistirem o programa da Jovem Guarda; meu pai desligava a televisão enfatizando que "estes cabeludos não prestavam"... Cabeludos e tatuados eram, com certeza, "maconheiros marginais". Meninas que se vestiam de forma extravagante ou com vestidos curtos eram perdidas... Para os homossexuais, verdadeiros "veados ou sapatas", nem haviam palavras para descrevê-los; restavam-lhes o sorriso de mofa e as piadas ácidas. 
 Sem a energia da coragem, enfiei-me nos livros; mas o estrago já estava feito. 
 Lá pelos 36 anos, aventurei-me na minha primeira viagem ao exterior. E imaginem para onde? Amsterdam! Foi aí que aqueles preconceitos começaram a ruir... Nas ruas, percebia pessoas vestidas das mais variadas formas. Eram multicoloridas. Não só as roupas, mas, também,  os cabelos... não eram artistas; eram donas de casa, eram estudantes. Eram homens de negócios! Ninguém os olhava com estranheza. E vi o primeiro casal de homos, por sinal lindíssimos, darem o primeiro beijo. Um beijo de amor, de afeto, de carinho... Apenas um beijo entre dois seres. E vi o casal de tatuados, com  muitas tatuagens, cuidar dos dois filhos com tanta ternura e cuidado que fiquei ali... Parada, admirando... Eram apenas uma família! Os cabeludos formavam grupos nas bibliotecas, em estudos compenetrados; não tinham aparência de drogados. Eram apenas jovens com sorrisos alegres. Nas ruas, aqui e ali, via um senhor engravatado, com um longo rabo de cavalo, segurando sua pasta executiva. E conheci senhoras que se reuniam para tomar um chá e, uma ou outra, fumava o seu "baseado" tranquilamente, sem perder sua compostura em nenhum momento. 
 Foi uma viagem de desconstrução! Depois dessa viagem, comecei a me questionar mais sobre o que me era enfiado goela abaixo, me questionar sobre o julgamento dos outros. A questionar-me: Quem eu era? Em quê eu realmente acreditava?
 Não culpo meus pais; afinal, eram também produtos da sociedade da época. Acredito na evolução em todos os aspectos e sou grata à mesma. 
 Ainda  me surpreendo, fazendo elocubrações sobre as minhas reações e emoções instintivas. Haverá alguma conexão com o que me foi ensinado ou, até mesmo, apenas ouvido? Quantas críticas veladas escutadas não foram guardadas de forma desapercebida? Será que a minha criança interna soube processá-las de forma sábia?
 Hoje, ouvi uma frase de um jovem, linda, e, ao mesmo tempo, triste e profunda. Disse-me ele: Você ilumina as pessoas, mas não se ilumina! 
 Aproveito o silêncio e a solidão noturna, para adentrar o quarto escuro do meu passado. Com ouvidos atentos e uma lanterna fictícia, vou iluminando aquela escuridão do tempo. Vou divisando palavras de censuras,  olhares de desaprovação e julgamentos dissimulados. Vou me desvendando...
 Me pergunto: Que outros tantos preconceitos terei que desconstruir?! Que luzes terei que usar para me iluminar e descobrir quem sou?
 Sorrio por compreender que ainda sou capaz e que possuo esta abertura de querer ver, de querer  aprender. Perceber que a construção de quem sou eu é um processo infinito. Perceber que a cada encontro, que em cada momento ou situação a vida me presenteia com a oportunidade da descoberta de quem sou eu.


 Foto: Lúcia Boonstra 

domingo, 5 de junho de 2022

A revolução de Woodstock dentro de mim

 


Quando a conheci, pareceu-me que havia saído de uma foto do Festival de Woodstock: Calças largas, de fundo bege com flores multicoloridas, e uma blusa amarela que nada combinava com as calças. Os sapatos, tipo mocassins de lona,  primavam pelo conforto, sem mostrar preocupação com a moda vigente. Os cabelos a altura dos ombros, já mostravam os fios grisalhos. Porém, o que mais me chamou a atenção, no primeiro momento, foram os óculos de armação branca estilo gatinha.  Por trás daqueles óculos, havia olhos tão expressivos! Ao mesmo tempo que  inspiravam calma, surgia o convite para o inusitado.

As  experiências de vida foram nos aproximando e a amizade surgiu naturalmente. Afinidades?! Não sei se temos muitas... ela é vegetariana, eu ainda estou no desejo de ser. Ela adora gatos, eu não os tenho em alta conta. Ela é mais aberta para a vida, eu ainda estou tentando abrir portas... 

Gosto da casa dela. Aquela mistura de pequenas coisas coloridas, pedras recolhidas ao acaso, conchinhas do mar, galhos apanhados nas ruas e plantas, muitas plantas... Nas suas mãos tudo se transforma! Decora e traz aconchego. Nossa conversa sempre flui com muita leveza, mesmo quando falamos de assuntos mais sérios, como a política do nosso Brasil ou as situações, que nós sessentonas, estamos vivenciando.

Hoje eu liguei para ela. Deveria ser uma ligação rápida para falar de uma prática de dança ao ar livre para os 50 plus. A conversa correu solta. Estávamos falando de  algumas dificuldades que eu tenho, quando, subitamente, me surpreendo relembrando um flash da minha adolescência. O botão vermelho acendeu! O bate papo continua e, novamente, me assusto com certas descobertas sobre mim, que pareciam irem se descortinando à minha frente. Pronto! Angélica, que é uma psicóloga,  de forma despretensiosa, me fez ver que era hora de mudar de terapeuta. Era hora de parar e colocar em prática o que eu vinha apregoando nos estudos do autoconhecimento. O buraco definitivamente era mais em baixo! Precisava de uma psicóloga  mais severa, alguém que me ferroasse e me tirasse da zona de conforto, na qual estava metida. Não era tarde para empreender a minha travessia no meu pântano, compreender certos comportamentos e crenças.  Era necessário mergulhar neste lodo que tão cuidadosamente eu conscientemente ou  inconscientemente escondi. 

Para Gustav Jung, o autoconhecimento é uma construção lenta e paciente, é um produto complexo e inacabado de uma caminhada que perpetua por uma vida inteira. Como sou espírita, acredito que vai além de uma vida... Mas crenças à parte, é necessário ter esta clareza: o autoconhecimento exige coragem, nem sempre queremos levantar o tapete do nosso íntimo; descobrir coisas que preferimos ignorar. Exige paciência e persistência, não vamos concretizá-lo imediatamente, é processo. E, ainda, exige uma amorosidade para conosco, é preciso deixar a culpa de lado. Ela não mudará o passado e só atravancará o nosso futuro.

 A chave é aceitar nossa humanidade. Somos assim: seres em processo de aprendizagem. Aceitemos!

E, neste momento me lembro da música do grande Oswaldo Montenegro, A lista. É uma música linda, com uma letra belíssima e que nos convida a uma reflexão. Trechos como " ...onde você ainda se reconhece/ na foto passada ou no espelho de agora ...", calam fundo em meu coração.

Assim como os hippies causaram mudanças culturais e comportamentais na década de 60 e 70, a minha amiga Angélica, causou uma verdadeira revolução na minha tarde ensolarada de hoje.

Continue assim: com suas roupas coloridas, seus óculos de gatinha e este olhar caloroso que nos convida e nos envolve. Obrigada pela sua amizade!

Amigas! O que seria de mim sem elas?!


segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Um Convite Inesperado

 



E chego de Portugal, depois de duas semanas generosas de férias e, me surpreendo com um convite de Mara Parrela. Vamos fazer uma entrevista  para o meu site Editora Árvore Alta?

Mas quem é Mara Parrela?!

Sei que é poetisa e também, assim como eu , participou como co autora do volume 6 da Rede Sem Fronteiras; mas é preciso lembrar que antes disso me deparei com o seu nome como escritora residente na Holanda… Ora, e não foi ela que gentilmente me enviou um e-mail me parabenizando pela Menção Honrosa recebida?! Mas mesmo assim ainda continuo me perguntando quem é Mara Parrela? 

Acessando seu site vou, aos poucos, descobrindo esta jornalista-poetisa, compatriota, que com certeza, também degusta com prazer um pão de queijo e uma boa vaca atolada. Ah, nossas Gerais… Agora compreendo melhor a simpatia imediata que ela me despertou...Seu jeitinho transpira a boa hospitalidade mineira! Percebendo estas afinidades tão próximas me sinto mais tranquila para também falar de mim.

Mas vamos à entrevista: Como cheguei à 91 Feira do Livro de Lisboa?

Escrevo desde a adolescência. Mas sou escritora de gaveta. A primeira vez que li um poema em público foi, por coincidência, no Porto. Em um Congresso Internacional de Superdotação. Depois de alguns anos, me atrevi a fazer uma instalação poética, em Aracruz, a convite da casa de cultura local. Depois destes dois momentos de fama (risos) continuei escrevendo e enchendo minhas gavetas… Até que a convite de uma grande amiga de faculdade, Almerinda Garibaldi,  com quem divido meu gosto pela Literatura, me inscrevi na Rede Sem Fronteiras. Tenho certeza que a pandemia colaborou bastante para que esta inscrição acontecesse. O parar dentro de casa, me fez buscar desafios.  Mostrar meus escrevinhados foi um deles. Aconteceu!

Você, Mara,  me pede para indicar bons autores, desde que não sejam os clássicos…  Neste momento, devo confessar minha dificuldade. Tenho me dedicado a leituras ligadas a espiritualidade e a psicologia; uma busca do Autoconhecimento. Assim tenho me aproximado de Freud, de Jung, de Joanna de Ângelis…

Entretanto, na minha vontade de me aproximar da língua holandesa, li Entre dois Mundos, de Remmelt Mastebroek. Achei-o de uma delicadeza ímpar. 

E com as lives da Rede Sem Fronteiras, durante a feira, me senti atiçada a conhecer um pouco mais Evaristo da Conceição, Moduan Matus, Flávio Nascimento e, naturalmente, Mara Parrela; entre outros.

Aqui, devo abrir um parêntese… deveria ter me lembrado do quanto admiro a poética e a sensibilidade de Mia Couto e, para os apreciadores de Filosofia, recomendo Lúcia Helena Galvão; uma professora que traz a Filosofia para perto de nós, com muita simplicidade e beleza.

A pergunta seguinte, como foi a minha experiência de participar do estande virtual da Rede sem Fronteiras na Feira do Livro de Lisboa, me fez rever momentos de prazer e de alegria. Ser comunicada da minha premiação, Menção Honrosa, pelo poema Meus Sapatos, foi uma  grata surpresa.

Com certeza, foi um estímulo para retirar meus “escrevinhados” das gavetas.

Por enquanto vamos ficar por aqui, Mara. Vamos nos encontrar e, teremos oportunidade de em um tête à tête. Até lá...


Enquanto isto recomendo visitarem https://editora árvore alta.com.br/ ; onde vocês terão a oportunidade de conhecer gente que inventa e se reinventa... Estamos por lá, nas Entrevistas.

Se quiserem continuar a caminhada, escolham sapatos confortáveis e, vão em busca daquele ou do quê poderá ser seu par perfeito...


 Meus Sapatos


Preciso de sapatos confortáveis.

Mas que sejam elegantes.

Meus sapatos me levarão

Por caminhos largos,

Por ruelas estreitas,

Avenidas e alamedas...

Juntos atravessaremos pontes,

Caminharemos pelos parques,

Jardins e praças.

Meus sapatos...

Juntos olharemos vitrines,

Visitaremos museus,

Invadiremos restaurantes e bares,

Subiremos escadas...

Cruzaremos rios e oceanos.

O guia nos mostrará castelos,

Arquiteturas de época, monumentos...

E, juntos, sei que descobriremos,

O par perfeito.


Foto: Andrezza A. Machado

 

 


domingo, 18 de julho de 2021

Vamos falar de tristeza?!

             
                                                          

E  agora? A tristeza chegou... O que eu faço com ela?!
E se eu lhe disser para não fazer nada... apenas sinta esta tristeza. 
Joanna de Ângelis no texto Considerações sobre a Tristeza afirma  que a tristeza não é o oposto da alegria, mas simplesmente a sua ausência momentânea e, que ela, também difere da melancolia. 
A melancolia é um estado de saudade de algo conhecido  e perdido ou desconhecido e não experimentado. E quando este sentimento de melancolia, de saudade perdura, pode descambar para a depressão.
Daí a necessidade, de pararmos e olhar com carinho nossos sentimentos, afim de perscrutarmos melhor sobre eles. Lembrando que só temos condições de mudar aquilo que conhecemos. Distinguir a tristeza da melancolia é o primeiro passo.
A tristeza é um sentimento que nos convida a uma viagem interior; avaliando o conteúdo que nos causou tal sentimento sob a perspectiva dos nossos valores. Fiquei triste por quê? Me senti agredida? ofendida? desapontada? Por que me senti assim? Feriu o meu orgulho? Expôs algo de mim que eu não quero aceitar? Frustrou as minhas expectativas?
Quanto mais se questionar, maior serão as chances de você se conhecer e aceitar-se. Com esta predisposição, devemos ter em mente que as perguntas sempre devem ser dirigidas a mim e feitas sobre mim; mesmo que eu atribua, a causa da minha tristeza, a outrem.
Faça este passeio dentro do seu jardim interno... mesmo que você descubra ervas daninhas dentro dele, apenas aceite que este é o seu jardim!
A nossa sociedade cobra-nos um estado de alegria constante; como se fosse uma condição de sucesso como ser humano. Esquecem que este comportamento seria simplesmente uma alienação da nossa realidade. Quem não muda de humor quando vê alguém sofrendo? E quando você bate o dedo no pé da mesa? E por aí vai... Não dá para colar uma máscara de alegria permanente, se assim procedêssemos estaríamos fadados ao adoecimento.
Viver a tristeza sem lamentações, sem queixas, sem ressentimentos é terapêutica; deve ser vista como um convite a mudanças. E elas só serão percebidas e realizadas se houver uma conversa interna com você.
Portanto, não cultive a tristeza, mas também, não fuja dela!
Se ela aparecer, acolha-a. Aproveite para tirar o melhor aprendizado desse momento de recolhimento. Aprecie as cores, as formas, o perfume, a variedade de todas as flores do seu jardim!


   Pintura:  Jardim de Flores, Marcelo Santos


terça-feira, 17 de novembro de 2020

Auto conhecimento

                                                   


Na ânsia de melhor me conhecer, talvez devido o momento de reclusão vivido pela  pandemia ou simplesmente por influência dos novos conhecimentos, adquiridos através dos livros de Allan kardec, o fato é que decidi investir um pouco mais neste chamado Autoconhecimento. Por coincidência ou por um aviso dos anjos,  caiu no meu WhatsApp um convite para uma aula gratuita de coaching.  O convite era uma cortesia de uma grande amiga. Amiga de longa data, embora não nos vejamos com a frequência desejada, cultivamos afinidades literárias, histórias de vidas e gosto pela espiritualidade. Ela dizia-se muito satisfeita com o resultado do coaching. Havia remodelado sua ONG, iniciado um curso de pintura em aquarela e, ainda, se debruçado com mais afinco na publicação de deu livro.

Ora, convenhamos, para nós, senhoras sessentonas, novos objetivos é sempre uma excitação a mais... Então decidi. Por que não? Soava-me um tanto chic dizer que estava fazendo coaching. Uma impressão de importância!(Risos) Na minha cabeça, grandes empresários ou pessoas de relevância na mídia ou no mundo dos negócios faziam coaching... é quando enxergamos nossa pequenez diante de quanto conhecimento nos falta! No momento, a grande estrela do coaching, Gerônimo Theml, não me  era estranha. Uma vez que, esporadicamente, ouvia seus podcast. Mas a falta de curiosidade não me levou a saber mais sobre ele. Achava sua fala interessante e era só. Mas vamos voltar ao foco. Cândida Quadrelli chegou na minha tela fazendo seu comercial como coaching e eu ali, quieta... ouvindo e avaliando. Certo. Não acredito, mas vou fazer por curiosidade. A voz da C. me soava metálica e eu pensava: Não vai dar... ela fala demais e não me seduz... e agora?! Já paguei. Ela me descia quadrado... não me lembrava em nada uma cerveja gelada em uma tarde de verão.

Aos poucos a insatisfação inquieta foi diminuindo e pude me concentrar no conteúdo. E, através de testes e outros mirabolantes retalhos ela ia costurando um perfil sobre a minha pessoa, que eu nem mesmo conhecia. Era desafiador me reconhecer naqueles pedaços costurados. Mas percebia que fazia sentido. E, foi assim, que me surpreendi fazendo as tarefas solicitadas e refletindo sobre meus sabotadores.

 O coaching visa mudança de comportamento, embora, seja preciso salientar, que se não houver a reflexão, a aceitação e o desejo, nada vai mudar. Pode até ocorrer mudanças por um curto período; entretanto,  a verdadeira e profunda mudança nasce da consciência de quem somos, da aceitação de quem somos e de como vamos externar estes nossos conteúdos. Se não houver a descoberta de quem somos e a aceitação plena de quem somos; vamos falir inevitavelmente! Faremos uma mudança de comportamento superficial e sem consistência, que poderá diluir-se com o tempo.

Conclusão: o coaching chegou em boa hora para mim. Acrescido de  umas boas horas de terapia e o estudo constante do Vai para dentro do Marlon Reikdal, posso afirmar que a cerveja está descendo mais redonda, mesmo sendo outono por aqui!



 


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Vai para dentro

  


 Sentada nos fundos da casa, observo o pequeno jardim que a minha frente se estende. Um pequeno canal divisa o jardim da rua, onde apenas os carros transitam. As frondosas e altas árvores que seguem após a rua, escondem as altas construções de apartamentos. A minha privacidade é única!

 Sem embotar minha visão, permaneço sentada por horas a fio, perdida em pensamentos inquietos sobre o que deveria estar fazendo. Enveredo pelas palestras do Marlon Reikdal, que me convida, de forma autoritária, a um Vai para Dentro. E nesta busca de ir para dentro e me conhecer, vou me assustando com minhas próprias mazelas, que ele teima em chamar de simplesmente Natureza Humana.

 As flores multicoloridas que se esparramam no tapete verde, circulam o laguinho, onde pequenos barbos rosados nadam entre as folhagens dos lírios d'água. E eu continuo na minha inquietação diária. Me questiono se não trai minha missão de vida. Muitos afirmam que se ouvíssemos mais atentamente nosso Eu interno, seríamos mais sábios e felizes; mas o burburinho constante da vida, da rotina, do afã do ter nos prejudica. E, agora, com esta pandemia, nos sentimos obrigados a parar. E quantos ainda se ressentem deste “parar”. O silêncio começa a incomodar… Não é fácil ir para dentro. Exige coragem! 

Observo o vento balançando os galhos das árvores e este movimento repercute em minha mente. Pensamentos que vão e vem… Uma doçura imensa de gratidão me invade o coração quando penso nos filhos e netos, na profissão que exerci, na vida que construí. Posso não ter feito tudo que deveria, mas, com certeza, fiz o melhor que consegui fazer. Uma amiga me liga e desabafa seus sentimentos de decepção, de raiva, de vontade de mudança… Ah! quem dera ter as palavras certas, o caminho marcado para dar-lhe a direção segura e mais feliz. Mas isto só ela pode descobrir. Ela tem que ir para dentro...

É preciso descobrir dentre as nossas dores, qual a que mais dói. É preciso definir o tamanho desta dor… e, assumindo nossas responsabilidades, pelas escolhas feitas, rastrear esta dor até seu ninho. É preciso coragem para aceitar nossas responsabilidades e nossa natureza Humana. Neste caminho, necessitamos de um grande amigo junto de nós: o perdão! Sem o perdão para nós e para os outros, estacaremos no meio do caminho. 

 O balançar das folhas e flores continuam. Meus pensamentos também continuam flutuando...mas olho para meu companheiro e pergunto sobre o que ele pensa. Há muito tempo na sua mudez contemplativa, ele apenas me responde: _Nada! Apenas observo!

 E me pergunto se faz parte desta cultura nórdica este contemplar… Que antes eu acreditava ser solidão; depois de muitos anos e muita convivência, dou minha mão a palmatória _ é simplesmente prazer em admirar, em comungar com a natureza. 

Sentem prazer em tirar um tempo para irem para dentro! Eu na minha brasilidade festiva não fui ensinada a contemplar… faço muito barulho. 

 Muitas vezes fecho a porta, mas não vou para dentro… Fecho o livro e sinto vontade de escrever. E mais uma vez a brisa quente provoca o bamboleio das folhas. Vou continuar a caminhada pelo meu corredor na busca de mim, mas os versículos de Mateus ficam comigo: “Observai  os pássaros no céu: eles não semeiam e não colhem, e não guardam nada nos celeiros; mas vosso Pai Celeste os alimenta…

Observai como crescem os lírios dos campos; eles não trabalham, nem fiam; e, entretanto, eu vos declaro que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, nunca se vestiu como um deles…”      (Mateus 6:26-29)



Foto: A.A.Machado

 

 


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Vire a página!


Pediram  a ela para virar a página.
Ela ainda não conseguiu.
A luta é diária... mas como virar a página, se ainda dói tanto!
Não foi apenas uma perda de 09 semanas... foi uma perda de uma ano.
Um ano investindo em um sonho.
Um ano de idas e vindas,
de dores, de stress, de renúncias.
Sangramentos e perdas.
Foram duas perdas, mas a vontade era maior.
E, finalmente, ia dar certo!
sentiu-se plena: ia ser mãe!
Mas agora pediam para ela virar a página!
Se pelo menos houvesse uma razão para ela culpar ou compreender?!
Se havia, desconhecia. Só Ele poderia saber...
E, neste momento de perda, sua fé era muito fraca para sustentar sua dor.
E agora?! Seguia em frente, tentando colocar ordem na sua História chamada Vida.
Mas, por mais que fazia, percebia, com certa mágoa nervosa, que se este capítulo não fosse encerrado, nada mais faria sentido.
E como fazer?! Colocar um ponto final e virar a página?!
ou dar mais um "start"?
As dores seriam já conhecidas. As idas e vindas precisariam ser melhoradas...
Que diminuíssem o stress, por favor!
E que desta vez lhe dessem a certeza de um final feliz .
Impossível!
Aí residia o seu Medo.
Não queria mais perder...
Já havia perdido muito...perdido a referência de um pai.
Perdido a liberdade de ter um bem de valor, para um moleque que lhe apontou uma arma.
Perdido um trabalho que lhe trazia satisfação. Perdido a convivência de amigos queridos...
Não queria mais perder!
O Medo de perder lhe paralisava.
Pa-ra-li-sa-va!
Até o dia em que teve coragem de gritar:
"Vou virar a página sim... mas quando o meu   luto passar.
Vou virar a página sim, quando eu me sentir forte para enfrentar este Medo.
Vou virar a página sim, quando eu estiver pronta para um novo "start"."
Depois deste grito, ela chorou copiosamente, mas ela compreendeu que sentir Medo fazia parte de Viver. Compreendeu que perder fazia parte do Viver; mas que durante as perdas, haveria muitos outros ganhos e ainda,  o mais importante: Que ninguém mais lhe dissesse "Vire a página!" Virar a página é um ato individual. Só você sabe se terminou ou não.
O Medo lhe ensinara ter outras Coragens:
Coragem de acolher-se.
Coragem de acolher sua perda e transformá-la em saudade; para depois guardá-la quentinha no fundo do seu coração.
Coragem de olhar para as pessoas e saber que podia dividir com elas sim.
Coragem de admitir que precisava de ajuda.
Coragem de não desistir...
Porque " é de batalha que se vive a Vida".
Se fosse para perder, que Deus lhe desse a força necessária para sustentá-la, mas que o Medo não a paralisasse novamente.
Parar nunca, seguir em frente, sempre!
Era Mulher, era guerreira...Era filha de Deus!