sábado, 25 de julho de 2026

A cabana Encantada

 




 “Ainda escrevo.
Não porque alimente aspirações a ser lido, mas porque há memórias que precisam ser escritas para ganharem coerência e verdade dentro de nós. 
Além disso, escrevo para que o deserto saiba que alguém, nestes tumultuosos dias do fim, amou loucamente toda a sua insubmissa imensidão”
                                                                                     Agualusa, José Eduardo

Estava feliz com a plateia que me rodeava.
Já havia lido um trecho do meu livro, A Pedra e o Vento, falado sobre meu processo criativo e pincelado algumas histórias sobre os personagens. Estava pronta para responder às perguntas.
A jovem de óculos redondos e ares de intelectual levantou a mão.
— Por que a senhora escreve?
Era uma pergunta simples.
Ou deveria ser.
Senti a garganta secar. Um gosto de folha velha invadiu minha boca.
A pergunta da moça abriu uma caixa antiga.
De súbito, eu tinha treze anos outra vez.
Senti o cheiro da minha mãe.
Vi a cabana erguida no quintal com seus lençóis floridos. O tapete macio onde eu me deitava cercada pelos meus companheiros mais fiéis: os livros.
Outra lembrança se interpõe. A professora caminhava entre as carteiras.
Minha caneta rodopiava entre os dedos.
Lembro-me de ter pensado que, daquela vez, ela queria realmente nos lascar.
Na folha do caderno havia apenas uma pergunta:
— Por que eu escrevo?
Isso lá era tema para uma redação?
Olhei para a pequena fresta do lençol e vi o céu em miríades de tons de azul.
Miríade.
Gostava daquela palavra.
Gostava de palavras esdrúxulas.
Gostava daquela cabana.
Gostava da sensação de que, ali dentro, eu era outra pessoa.
A cabana feita com os lençóis da minha mãe. A colcha, tecida no tear da tia Elda, servia de tapete. Os travesseiros espalhados, com suas fronhas desemparelhadas, pareciam as ilustrações dos livros que eu lia.
Ali eu era rainha.
Era viajante.
A soberana de um deserto inventado.
Por que eu escrevo?
Escrevo porque leio.
Leio tanto que, às vezes, sinto a cabeça querendo transbordar. As palavras entram por mim e depois procuram uma saída.
Cecília Meireles era doce como mel.
Vinicius de Moraes falava de amor como quem conhecia todos os seus segredos.
Clarice e Fernando Pessoa com seus heterônimos me confundiam e encantavam.
Havia tantos outros: Ernest Hemingway, Milan Kundera, Steinbeck...
Nunca me sentia sozinha quando estava com eles.
Suas palavras, frases e sentimentos iam me alimentando, preenchendo vazios que eu nem sabia nomear.
Também gostava da expressão dos meus colegas quando descobriam que eu já havia lido livros que eles sequer conheciam.
A Moreninha. Senhora. Vidas Secas. O Ateneu.
Eles me testavam de forma maldosa.
— Você leu mesmo?
Claro que li.
Enquanto muitos estavam na quadra ou nas aulas de Educação para o Lar, eu me escondia na biblioteca.
Apreciava o silêncio.
O cheiro dos livros.
A promessa de vida escondida atrás de cada lombada.
Na cabana, rolava sobre as almofadas coloridas, abria o caderno e escrevia.
Escrevia porque sentia dores no coração que não sabia explicar.
Escrevia porque era medrosa.
No papel, as palavras possuíam a coragem que me faltava.
Escrevia para me exibir também.
Queria que me olhassem e não percebessem as espinhas, os óculos baratos ou o cabelo rebelde.
Desejava que enxergassem a menina que conhecia histórias, visitava mundos distantes e que sabia coisas que os outros ignoravam.
Lia porque queria conhecer lugares onde nunca estivera.
Sentir emoções que ainda não vivera.
Vestir a pele das heroínas.
Escapar, por algumas horas, da vida que me cercava.
Lembro-me de ter terminado a redação com a convicção absoluta que só os adolescentes possuem:
"Escrevo porque um dia vou empunhar esta caneta e me tornar uma feiticeira das palavras."
O clarão de um flash me trouxe de volta.
A plateia continuava ali.
Cadeiras ocupadas.
Livros empilhados sobre a mesa.
A jovem ainda me observava, aguardando a resposta.
Peguei o copo com água.
Sorvi o gole gelado.
Sorri.
Talvez eu tivesse levado a vida inteira para responder aquela redação.
Então ergui os olhos para a moça e respondi:
— Escrevo porque um dia uma menina construiu um reino com lençóis no quintal de casa e descobriu que as palavras também podiam ser moradia.




quarta-feira, 15 de julho de 2026

A Porta Entreaberta



                                                    

 A viagem no tempo é solitária e silenciosa: quanto mais avançamos, menos somos vistos por aqueles que ficam para trás.


Dona Alzira tinha aprendido a envelhecer em silêncio. Um talento adquirido devagar, silencioso. Os filhos a visitavam aos domingos, os netos às vezes a beijavam na testa antes de mergulharem novamente nas telas luminosas dos celulares.

Sorria, servia bolo, recolhia as migalhas. 

Enquanto os sons iam e vinham pela casa, percebia algo estranho — parecia que sua presença ecoava menos a cada semana.

Aos setenta e oito anos, descobrira que a invisibilidade não chegava como um ataque, mas como uma névoa. Primeiro, deixavam de perguntar sua opinião. Depois, não notavam seu esforço. Por fim, deixavam de vê-la. E ela, que sempre fora uma mulher firme, começou a acreditar que talvez fosse natural desaparecer assim — desaparecendo numa sombra escura.


Memórias da desaparição


Lembrou-se da primeira vez em que sentira essa sombra crescer: estava numa festa de aniversário da família, quando ouviu um dos netos perguntar quem havia feito a maionese. 

— Foi a vovó! — respondeu orgulhoso um dos filhos. 

Antes que pudesse sorrir, alguém acrescentou: 

— Ah, ela sempre faz, nem precisa agradecer — Todos continuaram conversando como se ela fosse apenas parte do mobiliário, algo útil, estável, silencioso.

Outra lembrança emergiu: uma ida ao médico. Na sala de consulta, o doutor falava apenas com a filha mais velha — sobre os exames, remédios, dores que ela 

mesma descrevera momentos antes.  A palavra de Dona Alzira tornou-se descartável,

ou, pior, inexistente. Sentiu a estranha experiência de estar presente no próprio corpo e, ao mesmo tempo, excluída de qualquer autoridade sobre ele.

Havia, também, a situação no supermercado. Estava na fila, apoiada no carrinho, quando um homem mais jovem, sem sequer olhar em sua direção, passou na sua frente como se ela fosse ar transparente. Quando protestou, num fio de voz, ele apenas fez um 

gesto vago com a mão — algo entre desculpa e incômodo — e continuou. Os outros na fila desviaram os olhos, não por maldade, mas pelo desconforto de testemunhar uma injustiça que ninguém queria admitir.

O episódio que mais a marcou ocorreu dentro de sua própria casa. A família estava reunida para o almoço de Páscoa. As conversas iam animadas na mesa, passando por eleições, séries, viagens, promoções de emprego. Em determinado momento, ela tentou contar uma história antiga, da época em que os filhos eram pequenos e moravam num apartamento minúsculo. Abriu a boca, respirou para começar e, antes que dissesse a primeira frase, alguém mudou de assunto. Sua história ficou suspensa no ar, um pássaro que perde o impulso e cai sem nunca ter voado.

Ela sorriu para disfarçar, mas naquele instante percebeu que já não eram apenas os outros que deixavam de ouvi-la — ela mesma começava a duvidar se tinha algo a dizer.


O reencontro


Então reencontrou os livros.

Começou por um volume empoeirado de Clarice, que encontrara atrás das toalhas de mesa. As palavras a envolveram — ainda lhe serviam, ainda a aqueciam. Depois veio outra leitura, outra, outra. Cada página parecia devolver-lhe um pedaço que ela não sabia ter perdido.

Mas o verdadeiro abalo veio numa tarde em que, ao sair para pagar uma conta no centro, Dona Alzira entrou por impulso na pequena biblioteca municipal. A porta estava entreaberta. 

Um cartaz escrito à mão anunciava: “Sarau de Iniciantes — traga sua voz.

Sua voz.

A última vez que alguém lhe pedira isso, um dos filhos ainda usava aparelho nos dentes.

Sentou-se perto da janela, ouvindo as pessoas declamarem pequenos poemas, textos tímidos, fragmentos de memórias. Mãos tremiam, gargantas falhavam — mas ali 

todos pareciam ser vistos. Todos tinham um lugar na roda. Inclusive ela.

Quando a mediadora perguntou se mais alguém gostaria de ler, um silêncio leve invadiu a sala. Dona Alzira sentiu o coração bater fundo, como se despertasse de uma longa dormência. Lembrou das palavras que rabiscara durante a madrugada, num caderno velho: pensamentos soltos sobre solidão, sobre o que é permanecer quando o mundo já segue adiante.

Por um instante, pensou em levantar a mão.

Pensou em dizer “eu”.


sábado, 14 de fevereiro de 2026

O Catetinho não está em ruínas — está em silêncio. E esse silêncio acusa.

    

                                                 


        

Chega-se ao lugar como quem se aproxima de um capítulo vivo da história nacional: a primeira residência presidencial de Brasília, símbolo de improviso, decisão política, pressa desenvolvimentista, promessa de futuro. Madeira erguida no meio do cerrado como gesto de coragem e projeto. Mas basta atravessar a porta para perceber que a narrativa oficial não resiste ao cheiro de mofo.

As rachaduras falam. O pó fala. Os cantos escurecidos falam. A higiene descuidada é uma forma de discurso — talvez o mais honesto — sobre o valor que damos à memória. Não é apenas desgaste material: é abandono simbólico. É pedagogia negativa. O que se ensina ali, sem palavras, é que o passado serve para fotografia institucional, não para preservação contínua.

Dizer que falta interesse seria uma análise preguiçosa. Os turistas continuam chegando. Observam, leem as placas desbotadas, caminham em volta do prédio histórico. Mas os rostos mudam durante o percurso. A expectativa inicial se dissolve em decepção contida. Não é desinteresse do público — é desalento diante do desleixo. A apatia no atendimento, o tratamento burocrático de quem guarda — mas não protege — transforma patrimônio em repartição cansada.

O Catetinho não é apenas uma construção antiga. É documento político em forma de arquitetura. Representa um momento de inflexão do regime, um marco da economia desenvolvimentista, um gesto de fundação. Ali se concentraram decisões, conflitos, estratégias e sonhos que moldaram o país moderno. Quando a manutenção falha, não é a madeira que cede — é a narrativa histórica que apodrece.

E, paradoxalmente, o entorno permanece generoso. A paisagem oferece frescor, sombra, ar limpo, um convite à pausa. Um pequeno oásis que ainda cumpre sua função estética e reflexiva. A natureza resiste melhor do que a administração.

O problema não é falta de verba apenas — é falta de cultura de preservação. Somos a civilização da inauguração. Amamos a fita cortada, o discurso, a placa de bronze. Depois, abandonamos. Preferimos o espetáculo do novo ao compromisso da manutenção. Construímos para aparecer, não para durar. O ciclo é conhecido: pompa, foto, esquecimento, ferrugem.

Essa negligência não é neutra. Ela educa o eleitor, distorce a memória coletiva e prepara o terreno para escolhas enganosas. Quem não preserva o passado não avalia o presente com rigor. Sem memória cuidada, a crítica perde referência.

Que os ventos da responsabilidade soprem — sobre a comunidade, sobre a secretaria de turismo, sobre o governo do Distrito Federal. Preservar é um ato político de longo prazo. É gestão, técnica, respeito.

Manutenção não é detalhe: é ética pública aplicada à matéria.

Porque um país que não conserva seus marcos não constrói futuro — apenas repete esquecimentos.

Viva a memória.



Foto: Carol Vieira/CC BY-SA 4.0

https://pt.wikipedia.org/wiki/Catetinho


segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O mercador de Veneza

 

Sinto que as demandas de fim de ano estão me consumindo. Embora repita, quase como um mantra contemporâneo, o discurso de priorizar o tempo, tenho a incômoda sensação de desperdiçá-lo. Ele escorre pelas redes sociais, se dilui em devaneios improdutivos, acomoda-se no prazer legítimo — mas excessivo — de maratonar uma série. O cansaço não vem apenas do que faço, mas do que deixo de fazer com consciência.

Durante este recesso, que para mim será mais prolongado do que o habitual, pretendo reler O mercador de Veneza, de Shakespeare. Lembro-me com nitidez de tê-la assistido ainda adolescente, no Grande Teatro Tupi, da extinta Rede TV Tupi. A peça   tinha como ator principal o talentoso Ednei Geovenazzi. Causou-me um impacto profundo. Eu já era uma leitora voraz, mas ainda não havia lido Shakespeare. Conhecia Romeu e Julieta pelo nome, pelo mito, pelo eco cultural — não pela experiência da leitura. Ver O mercador de Veneza foi, à época, um choque estético e ético: algo ali me inquietou, embora não soubesse nomear exatamente o quê.

Hoje, percebo que caminhamos por uma Veneza que já não tem canais, mas timelines; já não ostenta máscaras de carnaval, mas discursos cuidadosamente maquiados. Ainda assim, o enredo é antigo. Shakespeare, com a precisão dos grandes anatomistas da alma, sabia: o tempo muda os figurinos, não os vícios.

Em O mercador de Veneza, Shylock não é apenas um personagem; é um espelho desconfortável. Judeu, estrangeiro, reduzido à caricatura por uma sociedade que precisa apontar um culpado para preservar sua própria imagem de civilidade. Ele concentra em si o ódio social legitimado, a exclusão travestida de norma. Hoje, basta trocar o gueto pelo algoritmo, a praça pública pelo noticiário, e veremos a mesma engrenagem funcionando com assustadora eficiência. O preconceito continua circulando como moeda invisível, aceito em piadas, silêncios cúmplices e indignações cuidadosamente seletivas.

O racismo — ainda que a peça o formule sobretudo em termos religiosos e culturais — persiste como cláusula tácita do contrato social. Na peça, ele se ancora na lei; em nosso tempo, na retórica da “opinião”. O efeito permanece idêntico: desumanizar para justificar a exclusão. Shylock pede justiça e recebe moralismo. Hoje, grupos inteiros pedem igualdade e recebem conselhos sobre resiliência, paciência ou mérito. A violência simbólica tornou-se mais polida, mas não menos eficaz.

E há a ambição — sempre ela — essa fome que não se sacia, apenas se refina. Antônio arrisca tudo em nome do comércio; nossos mercadores contemporâneos apostam futuros inteiros em mercados abstratos, cifras voláteis, promessas de crescimento infinito. A libra de carne já não é arrancada do corpo, mas do tempo, da saúde mental, da dignidade cotidiana. O lucro segue sendo apresentado como virtude, mesmo quando cobra juros em vidas.

Talvez o aspecto mais perturbador da peça — e do presente — seja a falsa vitória da justiça. Pórcia triunfa no tribunal, mas o faz humilhando, silenciando, forçando a conversão do outro. A causa é ganha, mas o humano é perdido. Quantas vezes, hoje, celebramos decisões “corretas” que preservam intactas as estruturas de exclusão? Quantas vitórias morais servem apenas para reafirmar quem tem o direito de falar — e quem deve calar?

A lição shakespeariana que resiste ao tempo é incômoda: não há neutralidade possível em sociedades fundadas na desigualdade. Sempre haverá um Shylock à margem, sempre haverá um tribunal disposto a chamá-lo de vilão para não encarar o próprio reflexo.

Talvez seja por isso que reler Shakespeare, neste recesso, me pareça menos um gesto de erudição e mais um exercício de lucidez. Porque a pergunta que O mercador de Veneza insiste em nos fazer — e que seguimos adiando — permanece urgente: quando pedimos justiça, buscamos equidade ou apenas vencer o processo? Se for apenas a vitória, continuaremos encenando a mesma peça. Com novos cenários, o mesmo texto e um público perigosamente habituado ao aplauso.

Você se arrisca a ler ou reler O mercador de Veneza?

 

sábado, 9 de agosto de 2025

Entre águas calmas e batucadas de raiz: uma roda de samba na Holanda


                                                                                         Foto: Lúcia Boonstra

Fui parar numa roda de samba. Assim, sem planejamento. Convite de amiga, domingo ensolarado, coração meio vazio e agenda idem. Hesitei — eu, que mal decoro uma letra inteira, que confundo sambistas, que sempre acho que samba é para os iniciados, para quem tem no sangue o compasso e nos quadris a licença. Mas, faltando onde ir, fui.

O bar tinha pé direito alto e, do pequeno terraço, se via um dos canais de Amsterdam. O verão escorria preguiçoso pelas águas, e barcos deslizavam como se nem tocassem o tempo. Cheguei cedo demais — pontualidade que aprendi aqui, e que só causa estranheza quando comparada ao desencontro confortável dos encontros brasileiros.

Na mesa à frente, quatro adolescentes riam com aquele tipo de alegria que parece não precisar de motivo. Quase arrisquei um comentário, uma aproximação de língua materna — mas me contive. Entre querer conversar e parecer intrometida, preferi o silêncio e mais um gole de cerveja.

Foi então que notei um homem se aproximando deles. Conversavam sobre música, shows. Aí soube: dois deles eram netos de Martinho da Vila — Dandara e Raoni. Atrações principais da noite do Roots Samba Amsterdam. A surpresa me calou por uns segundos. A admiração falou mais alto.

Me atrevi.

— Posso roubar uns minutos e fazer três perguntinhas para um provável texto?

O sorriso largo de Dandara e a voz acolhedora de Raoni me deixaram entrar. Ali, no improviso da prosa, ouvi mais do que respostas — escutei o pulsar de uma juventude que respeita o passado sem abrir mão do próprio passo.

“É uma honra... representamos a terceira geração da família do samba”, disse Raoni. “Mas queremos seguir com a nossa cara, do nosso jeito.”

É nesse entrelaçar do que foi com o que se quer ser que mora a beleza da arte deles. Criados nos bastidores do samba, entre ensaios, palcos e blocos de Carnaval, os dois carregam no timbre e na postura uma naturalidade que vem de berço. Mas não se escoram apenas no sobrenome. Eles estudam, viajam, ministram aulas, experimentam.

O samba, para eles, é mais do que música: é modo de viver e de comunicar. “A espontaneidade do samba é muito nossa também”, completa Dandara. E quem os vê no palco percebe: não há nada forçado, nem nos gestos nem nos sorrisos. A alegria é legítima, a troca com o público, sincera.

A conversa seguiu com fluidez. Falaram das vivências internacionais, do calor de um festival em Portugal, da emoção de ouvir estrangeiros cantar seus sambas, do aprender com o modo holandês de sambar. “É uma troca constante, uma energia que recarrega a gente pra seguir firme lá no Brasil”, disseram.

Saí da roda de samba — sim, fiquei até o fim — cantarolando refrões que nem sabia que sabia. Descobri que talvez o samba estivesse em mim o tempo todo, guardado entre lembranças de festas de rua, batuques de escola, ou só o eco de um pandeiro distante em tardes esquecidas.

Mais do que isso: entendi ali que o samba é também um caminho de identidade. Que cada geração reinventa, mas sem perder o compasso dos ancestrais. Dandara e Raoni me mostraram isso sem didatismo — apenas sendo quem são. Talvez essa seja a maior lição: a de que respeitar a ancestralidade não é repetir o que foi feito, mas continuar a batida — com alma, com coragem e com swing próprio.

Na volta pra casa, pelas ruas estreitas da cidade, os barcos ainda balançavam no canal. A noite não tinha pressa, e eu também não. Senti que, enfim, compreendi o que era sentir o samba — e ele batia suave no meu peito, como quem agradece a visita.


domingo, 27 de julho de 2025

As Caudas do Encontro

   

                                            

           "Vaidade de vaidades, tudo é vaidade_ sopro que passa, orgulho que não permanece." 

             ( Eclesiastes 1:2, com complemento poético)

 Luiza chegou ao local do evento com a serenidade de quem conhece o próprio passo. Usava um vestido azul escuro, simples, linhas fluidas; seguia com elegância discreta. Seu olhar percorria o salão com curiosidade genuína. A luz era dourada, os lustres reluziam e, ao fundo, ouvia-se um quarteto de cordas dedilhando suavemente algo que lembrava Debussy.

    A recepção a surpeende: garçons impecáveis com bandejas espelhadas, taças tilintando, havia risos bem colocados e, principalmente, fotógrafa atenta aos brilhos. Antes mesmo que Luiza tirasse o casaco, uma lente a mirou com precisão. O clique da câmera disparou, capturando a imagem. O pensamento distanciou-se. Luiza apenas sorriu e seguiu adiante, sentindo-se como um detalhe fora daquela moldura social.

    Quando recebeu o convite para o Encontro de Poetas do Sul, sentiu-se honrada. Sabia que sua poesia ainda tateava territórios. Escrevia por pulsão, por necessidade de atravessar silêncios com palavras. Mas nunca se vangloriava por isso.

    No salão, começou a conversar com um senhor que se apresentara como escritor performático. Trajava uma roupa iridescente, tecido mutável, que reluzia conforme a luz _ e a vaidade. Iniciaram um diálogo sobre métrica e oralidade, mas Luiza notou que, aos poucos, ele deixava de responder para se ajeitar no espelho de uma coluna. A cada frase dita por ela, ele rebatia com algo sobre si mesmo. Ela comentou a função social do poema; ele respondeu com o número de seguidores nas redes.

     Foi nesse momento que Luiza viu, pela primeira vez, a cauda. Uma cauda literal. Rabo comprido, penas vistosas, surgiu às costas dele, como se a vaidade se materializasse em plumagem. Ela piscou, achando ser efeito da luz, as logo percebeu outras pessoas no salão ostentando o mesmo ornamento. Pavões. Surreais, autênticos, impossíveis.

    Pavões literários.

    Cada um mais colorido, mais largo, mais decorado com brilhos, glitter e palavras flutuantes. A fotógrafa, agora com uma câmera de lentes múltiplas, olhar embriagado, os seguia em espasmos criativos. Os cliques multiplicavam-se. " Nenhuma legenda seria suficiente" , pensava.

     Luiza buscava uma interlocução real. Estava ávida de conhecimentos, de trocas... Aproximou-se de uma poetisa cujos poemas conhecia e admirava. Iniciou uma conversa com entusiasmo, mas, à medida em que falava, percebeu que a outra lhe olhava com um misto de compaixão, indiferença. De súbito, outra cauda se abriu. Longa, dourada, ondulando como verso rimado. Competição muda, porém gritante. Não havia a elegância do diálogo. Predominava o diálogo do Eu. Os elogios vazios apenas eram reflexos do que o outro esperava _ e não do que se via, sentia ou lia.

    Constrangida, Luiza afasta-se. Interceptada por uma apresentadora do evento que, sem aviso, pediu que ela compartilhasse um poema ao vivo, no microfone, em meio àquela platéia empavonada. Luiza congelou.

    Respirou fundo. Aproximou-se do microfone. Sabia de cor dezenas de poemas, sentiu a mudez. A luz a cegava. O silêncio, incômodo. Tentou dizer algo, a voz falhou. A plateia piscava em caudas. Alguns gravavam, outros riam discretamente. Alguém comentou:

    _ Ela parecia tão segura.

    Luiza desceu do palco devagar. Não chorou. Sentou-se num canto, perto de uma mesa de doces; salivando o amargo, observou: interações, olhares escorregadios, vaidades saltando da pele.

    Foi ali, num canto sem cauda, que uma jovem se aproximou. Não tinha adereços nem fala inflamada. Só um caderno nas mãos, olhos ansiosos.

    _ Eu a acompanho no blog. Seus textos me fazem pensar. Você escreve de um jeito qque a gente sente junto. Dá vontade de ler mais, de descobrir mais...

    Luiza sorriu. Era só isso.

    Mais tarde, enquanto saia do evento, já sem luzes nem música, recordou as palavras do Sermão da Montanha: "Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus".  E pensou, que ali, entre pavões e silêncios, aprendeu uma nova forma de escrever não com as penas, mas com o voo da alma. 

        



domingo, 25 de maio de 2025

Reflexões sobre confiar, oferecer e o vazio das cadeiras


          

Preparei tudo com zelo de quem acredita. Não num milagre, mas no encontro.

Organizei um workshop com o coração exposto. O tema era daqueles que não cabem em vitrines: a poesia como ferramenta de cura, como espelho do autoconhecimento, como semente de transformação. Não vendia fórmulas nem prometia salvação. Só oferecia o que sei fazer com inteireza — palavras vivas, experiência real, escuta verdadeira.

A proposta havia sido bem recebida em outras terras — Holanda, Portugal, Brasil. E aqui, mais uma vez, me disseram: “Que maravilha! Eu vou! Vou chamar mais gente!”
            Confiei. Como quem recebe um sim como abraço.

Mas no dia, chegaram apenas três netas — amorosas, fiéis — e a namorada de uma delas. Só uma no horário. As outras, muitos minutos depois, como quem ainda assim insiste na delicadeza. E o resto? O resto ficou no mundo das promessas vazias.
            Gente que disse vir. Gente que sorriu, acenou, se entusiasmou. Mas não veio.

Cada uma das ausências trouxe seu motivo: Aniversário do amigo, gripe que derrubou, consulta médica que não deu pra remarcar. Encontro inadiável.

Aceitei.

Sim, aceitei. Porque são justificativas plausíveis, humanas. Aceitar não elimina o vazio. Não preenche o espaço das cadeiras vazias nem o silêncio onde esperava vozes. Aceitar não é o mesmo que não sentir.

Onde foi que falhei? Essa pergunta me atravessou.Teria sido ingenuidade minha confiar nas palavras? Faltou divulgação mais agressiva? Um banner chamativo? Um sorteio? Ou — como me disseram — foi o fato de ser gratuito?

Vivemos tempos estranhos. O que é oferecido sem custo parece não ter valor. Gratuito, dizem, é sinônimo de descartável. Como se preço definisse profundidade. Como se o afeto e o conhecimento precisassem de etiqueta com cifrão para merecer respeito.

Há um abismo entre o gratuito e o sem valor. Oferecer algo sem cobrar é, às vezes, um ato de generosidade, outras vezes, é resistência. É acreditar que certas partilhas não se compram, se acolhem. É confiar na reciprocidade do outro. E é aí que doeu mais: na confiança quebrada. Não foram só cadeiras vazias. Foi o eco de tantas palavras que pareceram verdade e se desmancharam no ar. A decepção não é pela ausência em si — ela também ensina. É pela quebra de algo mais íntimo: a fé nas intenções alheias.

Não desisto. Porque ainda acredito. Quero acreditar nas palavras, nas pessoas, nos encontros.

Este texto não é um desabafo. É um convite. A quem lê, pergunto: Quantas vezes você acenou com um “vou” sem ter intenção de ir? Quantas vezes deixou de comparecer a algo gratuito porque “não custa nada mesmo”? Quantas vezes esqueceu que, do outro lado, há alguém esperando — não só sua presença, mas sua escuta, seu compromisso, sua troca?

Quem sabe, da próxima vez, você honre esse convite. Sobretudo se for gratuito. Porque, às vezes, o que é oferecido de graça é o que tem mais valor: a presença, a palavra, o gesto. 

A coragem de estar!


quinta-feira, 22 de maio de 2025

Entre palavras e vitrines

 

                                                                                             Captura no Freepik

Passeava pela rua sem um destino definido quando fui atraída por uma pequena livraria. A decoração aconchegante, a disposição dos livros, o cheiro, tudo era um convite para entrar e percorrer o espaço. Havia algo quase ritualístico naquele momento: atravessar a porta, sentir a madeira ranger sob os pés, passar os dedos pelas lombadas dos livros como quem busca uma conversa silenciosa.

Sou escritora — iniciante, é verdade — mas já experimentei a alegria de ver meu trabalho lido com atenção por quem entende de literatura. Recebi palavras generosas de estudiosos, aquelas que aquecem e encorajam. Escrever me dá um prazer difícil de traduzir: é um lugar onde o tempo se dobra, onde posso ser e dizer, sem pressa, sem exigência externa. Mas ao entrar naquela livraria, entre vitrines decoradas e mesas com "os mais vendidos", algo em mim pesou.

Observo o mercado. Muitas editoras parecem se mover apenas pelo que promete retorno imediato. E, com isso, abre-se espaço para toda sorte de textos — alguns envolventes, outros apressados, produtos de fórmulas e tendências, embalados com esmero. A literatura, essa arte feita de escuta, respiro e lapidação, muitas vezes fica à margem.

Para nós, escritores, percebo um constrangimento que nos acompanha quando chega a hora de vender o que escrevemos. A escrita, para muitos, é um chamado íntimo, quase secreto. Publicar já é um ato de coragem. Vender, então, exige um desdobramento emocional que nem todos estão preparados para encarar. Como se, de repente, o gesto íntimo da criação tivesse que vestir roupas de vendedor, sorrir para a câmera, disputar espaço nas redes e nos algoritmos. Não gosto disso. Não sei se quero aprender.

Não se trata de ressentimento, mas de um estranhamento. A escrita me exige presença, mergulho, entrega. Já a exposição nas vitrines do marketing parece pedir o oposto: performance, velocidade, impacto. O que falta em elaboração sobra, muitas vezes, em estratégia A pseudo literatura — essa que salta aos olhos, mas pouco toca o fundo — ganha corpo nesse cenário. A força das mídias sociais, a arte da autopromoção e os algoritmos bem alimentados impulsionam a visibilidade dessas obras. Assim, vendem. Vendem muito.

Não vejam como crítica, mas um convite à reflexão. Porque o prazer de escrever ainda mora no silêncio, no gesto quase artesanal de dar forma às palavras. E, por mais que o mundo corra, ainda há leitores atentos, livrarias acolhedoras e autores que escrevem não apenas para vender, mas para tocar — de verdade — o outro.

Fico ali, entre prateleiras, com um livro na mão e mil pensamentos na cabeça. Talvez a literatura sempre tenha sido assim: um ofício de fé, resistência e delicadeza. Talvez escrever, hoje, seja também um ato de recusa. De não ceder à pressa, de não transformar a palavra em produto. De seguir, mesmo sem manual de autopromoção, acreditando que alguns livros — mesmo os que não brilham nas vitrines — ainda encontrarão seus leitores.

 

sábado, 26 de abril de 2025

Entre laranjas e palavras: Uma crônica sobre lealdade



Hoje, saí para celebrar. Por todos os lados, bandeirolas, balões, pessoas trajando roupas festivas, estranhas, adereços singulares, tudo laranja. Na Holanda, é o dia em que o país inteiro veste-se assim — a cor que simboliza não apenas a família real, mas também o orgulho e a alegria de um povo que sabe, como poucos, celebrar sua identidade: o Koningsdag, o Dia do Rei. Ruas repletas de música, mercados livres, rostos pintados e sorrisos largos compõem o cenário desta festa que, mais do que uma homenagem, é uma declaração pública de lealdade.

    Lealdade é um fio invisível que tece relações verdadeiras, seja entre súditos e soberano, seja entre sonhadores e sua missão. E é nesse espírito que encontramos a Rede Sem Fronteiras, uma entidade que, assim como os holandeses em sua festa, carrega uma devoção sincera — mas, no caso, à literatura, à cultura e à difusão da língua portuguesa mundo afora.

    Se o Koningsdag é uma celebração da união nacional em torno de uma história e de um símbolo, a Rede Sem Fronteiras é a celebração contínua da identidade cultural brasileira através de livros, eventos e projetos que ultrapassam mares e fronteiras físicas, chegando a 33 países. A lealdade aqui não é a um trono, mas a um propósito maior: o de manter viva a chama da literatura, do encontro de vozes e da construção de pontes entre culturas.

    Tal qual os holandeses que, no Koningsdag, orgulhosamente reafirmam sua conexão com a realeza, os membros da Rede reafirmam diariamente seu compromisso com a arte de contar histórias — histórias que unem, que emocionam, que transformam. A cada feira literária, a cada novo projeto, eles estendem a coroa simbólica da palavra a todos que acreditam que a cultura é, também ela, uma forma de realeza.

    Entre laranjas, livros e sonhos, o Koningsdag e a Rede Sem Fronteiras se encontram: ambos são celebrações daquilo que nos une — seja um país, seja uma língua, seja uma paixão que atravessa oceanos.

   Se o Koningsdag é o dia de vestir-se de laranja para saudar o rei, a Rede Sem Fronteiras veste-se todos os dias de esperança, de perseverança, de uma fidelidade sem fronteiras a um ideal que, como toda verdadeira monarquia de espírito, não impõe: inspirar.

   Neste ano, reafirmando seu compromisso com a difusão cultural, a Rede brilhou na Feira do Livro Infantil de Bolonha, uma das mais prestigiadas vitrines literárias do mundo, levando consigo a força da literatura lusófona e abrindo novas portas para autores brasileiros no cenário internacional. E a jornada continua: escritores, leitores e amantes da cultura são convidados a se juntar à Rede na próxima Feira do Livro de Lisboa, no Pavilhão H39, onde, mais uma vez, a língua portuguesa celebrará sua majestade e sua travessia sem fronteiras.                                  

quarta-feira, 16 de abril de 2025

As palavras e o coelho

   

    
 Sentada no café, apreciava o movimento da rua em frente. O capuccino feito com leite fresco, tinha sabor e cheiro de infância na fazenda. A espuma era saborosa. Levantei os olhos e reparei na cena: uma menina com orelhas de coelho corria atrás de uma mulher distraída, rindo como se o mundo não tivesse peso algum. Era impossível não sorrir. Algo naquela imagem parecia tirado de um livro, ou melhor, de um sonho.                                                                                                  Me lembrei de Alice no País das Maravilhas, quando ela persegue o Coelho Branco e mergulha em um universo onde o tempo, as regras e até as palavras ganham outros significados. Em um dos trechos, o Gato de Cheshire diz: “Palavras significam o que eu quero que elas signifiquem. Nem mais, nem menos.” Sempre achei essa fala provocadora. Palavras são pontes e labirintos ao mesmo tempo. Pensei na Páscoa que se aproxima. Para muitos, é tempo de ovos de chocolate, coelhos e reuniões em família. Para outros, é renovação, passagem, silêncio, ressurreição. O curioso é como cada palavra — “esperança”, “renascimento”, “fé” — tem um sabor diferente na boca de quem a pronuncia. E como as palavras, mesmo as pequenas, carregam mundos inteiros dentro delas. As palavras têm poder. Elas criam, confortam, transformam. Talvez esse seja o verdadeiro milagre da linguagem: nos dar caminhos quando tudo parece fechado.           Assim como Alice atravessou o espelho e encontrou um mundo onde tudo era possível, a Páscoa também nos convida a atravessar. A sair do automático, do cinza dos dias iguais, e redescobrir a beleza do simples: um café bem feito, uma risada de criança, uma história que nos fez pensar diferente.                                                           Entre um gole e outro, decidi escrever — para lembrar a mim mesma que às vezes, tudo o que a gente precisa é seguir o coelho, abraçar o mistério e acreditar que, mesmo em tempos difíceis, a esperança também tem orelhas longas e corre na nossa direção. No próximo domingo, celebramos a Páscoa.          
     Que tal aproveitar essa data para refletir sobre os significados que damos às palavras, às tradições, às pequenas coisas? Que cada um possa encontrar, à sua maneira, um sentido novo para o que já parecia conhecido. E quem sabe, descobrir que a travessia mais importante é a que fazemos por dentro. 

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

A pedra no meio do caminho Literário

 



Quando você não consegue mudar a realidade e você a usa como inspiração. Aconteceu!

Era uma vez uma escritora que vivia em um pequeno apartamento, cercada por pilhas de livros e manuscritos inacabados. Ela se chamava Clarice — não aquela, mas uma Clarice que sonhava em se tornar um grande nome da literatura nacional. E, vejam só, a grande chance finalmente havia chegado! No dia seguinte, ela iria receber o prêmio mais importante da sua carreira em um evento literário que reuniria os maiores nomes do meio. O vestido estava pronto, o discurso ensaiado e a expectativa a mil.

Mas como a vida adora brincar com os nossos sonhos, eis que, na véspera do evento, Clarice começou a sentir uma dorzinha esquisita nas costas. “Deve ser nervosismo”, pensou, tentando afastar a preocupação. Afinal, quem não ficaria com o coração acelerado na véspera de um grande prêmio? 

Só que a dor não quis saber de se acalmar. Pelo contrário, ela foi crescendo, aumentando, até que Clarice se viu retorcida de dor no sofá. A cada pontada, uma frase diferente de seu discurso de agradecimento dançava em sua mente, agora acompanhada de grunhidos e suspiros. No desespero, ela foi ao pronto-socorro, certa de que era o fim de sua grande estreia no mundo literário.

“Você tem uma pedra no rim”, disse o médico, com a calma de quem está acostumado a dar notícias devastadoras. 

Uma pedra. Logo ela, que tanto admirava o poema de Carlos Drummond de Andrade, agora se via diante de sua própria “pedra no meio do caminho”. Mas esta não era uma pedra metafórica, era uma pedra literal, minúscula e impertinente, que parecia querer arruinar o grande dia.

No caminho de Clarice tinha uma pedra. Tinha uma pedra no caminho de Clarice. 

Ela não sabia se ria ou chorava, mas como escritora, sabia que a vida adorava uma ironia. No fundo, aquela pedra não era só um incômodo físico, mas também uma prova viva de que a vida nunca seguia o roteiro que planejamos. Em meio à dor, Clarice se imaginava subindo ao palco, com uma bolsa de água quente escondida sob o vestido, e agradecendo o prêmio com um discurso emocionado que misturava gratidão e morfina.

“Senhoras e senhores, hoje eu não subo ao palco sozinha. Trago comigo uma convidada especial, uma pedra, que resolveu me acompanhar nessa jornada literária”, ela diria, arrancando risadas e aplausos da plateia.

Mas a verdade é que, mesmo entre uma contração dolorida e outra, Clarice sabia que não era qualquer pedra que a faria desistir. Com a dose certa de analgésicos e o apoio de uma boa dose de humor, no dia seguinte, lá estava ela, recebendo o prêmio com um sorriso meio torto, é verdade, mas um sorriso de vitória.

Afinal, a vida pode até colocar pedras no nosso caminho, mas cabe a nós decidir como vamos lidar com elas. Clarice optou por usá-la como inspiração. E quem sabe, na próxima coletânea de contos, não apareça uma história sobre uma escritora que, prestes a ser premiada, descobriu que no meio de seu caminho literário tinha uma pedra, e que essa pedra se transformou em um de seus maiores sucessos?

“Não tem problema, Drummond”, pensou Clarice, enquanto deixava o palco. “Eu também vou fazer da minha pedra um poema”.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

São as águas de março


 

                                                                                 

Procuro todo ano um novo local para passar minhas curtas férias de cerca de oito dias. Quase sempre, a escolha recai sobre as cidades praianas do Brasil. Não que eu goste de praia, mas meu parceiro gosta. Acabo cedendo, o que é bem típico. Mas essa é outra história.

O fato é que sempre me deslumbro com o quanto somos privilegiados pela natureza que nos presenteia com belas paisagens. Seja pelo mar azul ou esverdeado com suas praias de areia fina e branca, ou pelas verdejantes matas, muitas vezes com falésias coloridas separando os dois cenários.

Ao mesmo tempo, percebo o quanto somos gananciosos e imaturos na destruição de toda essa beleza, que é o motivo das nossas tão sonhadas férias. No ano passado, estive em João Pessoa. Que povo hospitaleiro! Que delícia de praias com suas águas quentes! Mas que descuido com o patrimônio histórico! As construções que contam a nossa história se deterioram diante da indiferença da população e dos governantes. Alguns poucos se manifestam e encontram ouvidos moucos. Devo ressaltar que o calçadão da praia, assim como as ruas percorridas, eram limpos, mas falta zelo pela preservação da nossa história. O Hotel Globo, muito bem localizado e com possibilidades infindáveis de exploração turística, teve todo o seu mobiliário esquecido e surrupiado; hoje, o tempo o dilapida, enquanto as agências turísticas nos leva para vê-lo. O mesmo ocorre com o antigo Colégio Nossa Senhora das Neves e muitos outros.

Encontrei, por acaso, um grupo de políticos e empresários em um dos restaurantes da orla. Pedi licença e expressei minhas opiniões, crivando-os de perguntas não respondidas. Mas quem sou eu? Apenas mais uma turista. Atrás de mim, virão outros e mais outros...

O mesmo se deu este ano. Dessa vez, em Ilhéus. Vendem a imagem e frases soltas de Jorge Amado. Excluindo o Bataclã e o Vesúvio, o restante descasca e se dissolve no calor e no tempo. A estátua de Jorge Amado em dourado, à porta daquilo que chamam de Casa de Jorge Amado e que tem como recepcionistas meninas descuidadas e que jamais abriram um livro do autor, clama por cuidado e respeito ao seu legado e à terra que ele imortalizou em seus romances.

Como escritora, levei livros para doar para a Biblioteca Municipal Adonias Filho, que, diga-se de passagem, é um prédio de arquitetura neoclássica belíssimo. Dei de cara com um prédio moribundo. Não se deram nem ao trabalho de atualizar o site, informando que a biblioteca está fechada há mais de dois anos.

As praias são convidativas, bem ao meu gosto: longa faixa de areia com ondas leves, ideais para crianças e famílias se divertirem. Mas a sujeira que impera nas barracas nos afasta das suas cozinhas, e o atendimento parece nos comunicar: "Não precisamos de vocês, turistas!"

No próximo ano, pretendemos ir a Guarajuba, Bahia.  Será uma viagem de reunião de família. Se a praia não for boa, teremos a mesa de buraco garantida, as piadas soltas e o aconchego do seio familiar. Portanto, sem grandes expectativas.

E as águas de março? Pois é: estamos no final de maio e as chuvas castigaram impiedosamente o Rio Grande do Sul. Qual a relação? Vocês se perguntam. A resposta é simples: mais uma vez nos deparamos com a ambição humana versus Natureza.


                São as águas de março?

Não são as águas de março que trazem a destruição,

mas a desonesta e degradada falta de ação.

Não são as águas de março fechando o verão,

são as promessas não cumpridas que calam no nosso coração.

   É a corrupção arrastando vidas e dignidade pelo chão.                                      

                                                                            Trecho do poema  escrito em   30/05/2024.

Foto Acervo pessoal


domingo, 9 de julho de 2023

Erratas são necessárias.



Relendo alguns posts antigos, aqui publicados, deparei-me com este:

Lya Luft, na Revista Veja de 24/29 de fevereiro de 2012, publicou Erratas na Vida. Como sempre um texto limpo, belo e verdadeiro. Gosto do que ela escreve. É sempre surpreendente e tão simples. Se algum dia tivesse a pretensão de ser escritora, gostaria de tê-la como fada madrinha. E, enquanto esta habilidade não se apropria de mim, vou seguindo a Lya, a Cecília, o Mário e tantos outros que nos conquistam através de sua Literatura colorida de vida.

O texto prosegue e, devo admitir que ele continua atual, continua a expressar meus sentimentos e minha falha em registrar fotograficamente os doces e interessantes momentos compartilhados em  minha vida. Mas o que me chamou a atenção foi esta frase do parágrafo inicialSe algum dia tivesse a pretensão de ser escritora, gostaria de tê-la como fada madrinha. Aqui, eu parei como um bêbado que tem a certeza, de que se der mais um passo vai cair.  Como pude ser tão cínica?! Ou foi cegueira? Ainda me custa encontrar uma explicação plausível para tamanha mentira. Como eu poderia iniciar um blog, escrevendo crônicas e afirmar que não tinha a pretensão de ser escritora?! 

É evidente que sempre camuflei este desejo. Escrevo desde a adolescência. Aqui e ali, mostrava para alguém muito próximo. E por que o desejo camuflado? O bêbado se equilibra como um dos velhos bonecos que chamávamos de João Bobo e procura encontrar a resposta. E, de muito distante, me vem a citação lida em um dos livros  de Allan Kardec: Já o dissemos muitas vezes; o egoísmo. Dele deriva todo o mal. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos existe o egoísmo. Na caminhada das reflexões, eu poderia dizer que era por timidez ou insegurança; sabendo que ambas estavam no mesmo saco. O bêbado, mesmo titubeando, decide dar os primeiros passos. Por quê insegurança? Medo de não escrever bem o suficiente? O suficiente para quem? Vamos lá, mesmo mal se equilibrando você consegue... Medo das críticas... Neste ponto, o bêbado pára e busca no fundo da sua mente uma definicção para  o egoímo. E acha: Egoísmo é um exclusivismo que faz o indivíduo se referir tudo a si próprio. É um orgulho, uma presunção.

O meu perfeccionismo, derivado do meu egocentrismo, acreditava que os outros poderiam errar, mas eu não! Bendita presunção! Estúpido orgulho!  O bêbado só se atrevia a percorrer as ruas extremamente conhecidas, evitava os tombos... privando-se assim, de ver e descobrir novas belezas, encontrar novos amigos, de aprender a cair e levantar e, quem sabe, gostar das descobertas da nova caminhada. A fantasia de ser excelente em todos os aspectos... Esquecendo que somos humanos, seres ainda em construção e, que esta construção, só acontece na caminhada. E que durante esta caminhada, os tombos, as falhas são inevitáveis... Hoje, depois de publicar meu primeiro livro, participar de eventos literários e já estar em vias de publicar o segundo e o terceiro livro, me interrogo: Quantas ou quantos de nós deixamos de seguir as nossas aspirações e enterramos nossos talentos, porque no fundo da nossa alma, albergamos o desejo de sermos o centro do mundo, de sermos o deus perfeito. O quanto de presunção há dentro de nós em relação aos nossos relacionamentos, às nossas escolhas,às nossas atitudes...

No último domingo, apresentei o meu livro de poesias, Soprados das Gavetas, em um café em Amsterdam e, novamente perdi a oportunidade de registrar a presença de alguns amigos; os registros que me chegaram, foram feitos por alguns deles; continuo me esquecendo e sei que meu egoísmo/egocentrismo, muitas vezes serão esquecidos; sei que fazem parte de mim. Porém, me sinto vencedora. Dei um passo e, agora, estou mais atenta à sua atuação. O bêbado dentro de mim ou a criança, está dando cambalhotas de contentamento por ter descoberto uma nova rua.  Quantas outras ainda temos por descobrir? _ Não sei! Mas estou consciente que os tombos são necessários. São pedagógicos.

E você já verificou em que aspecto o seu egoísmo está lhe impedindo de desvendar outros acessos? Erratas são sempre necessárias. Que bom que podemos fazê-las!


sexta-feira, 23 de junho de 2023

Pedido Público de Desculpas

                                                                       Foto cedida por Dinorah Couto Cançado

Ela se faz presente por onde passa. Sua voz rápida, mostra uma urgência em ser ouvida e, se possível, atendida. Sua perseverança na luta para trazer à luz e, também, ampliar os direitos das pessoas cegas é inegável. Como ela mesma se intitula: Sou incansável! Já fundou uma biblioteca braille, uma academia para escritores inclusivos, é escritora e presença assídua em eventos literários ou políticos que possam agregar visibilidade à sua empreitada.

Encontrei-me com ela poucas vezes. Foram encontros fortuítos, mas antes disso, já a conhecia pelas redes sociais e ouvia sobre ela através de conhecidos.  A participação nos encontros literários nos fizeram esbarrar com uma maior frequência; até porque somos da mesma região. E foi num destes encontros, que eu esperava dar voz aos membros representantes das diversas entidades literárias, que eu disse a ela: _Cada um vai poder falar da sua entidade, mas cuidado, procure falar pouco. Você fala demais!_ Naturalmente houve um silêncio constrangedor.

Passado o evento, que afinal, não deu voz, como eu esperava, aos colegas, alguém comentou o episódio comigo. Eu reagi afirmando que, os anos de convivência com a cultura holandesa, me fizeram aprender uma comunicação e uma maneira de ser mais direta. Com certeza é uma verdade, mas tem mais caroço neste angú... Então vamos por parte.

Antes de publicar o meu livro, Soprados das Gavetas, aparecia de vez em quando nas redes sociais; confesso que tenho uma aversão àquelas pessoas que postam tudo que fazem: onde estiveram, com quem estiveram, o que comeram... e por aí vai. Entretanto, agora, sei que preciso estar presente nestas mídias com uma  constância, que considero inquietante, mas este é um dos caminhos  para vender o meu livro. Não sou uma Cecília Meireles! Devo confessar que ainda não me sinto à vontade. Qual a relação disso com o fato da minha "comunicação direta" com a colega? Tenham paciência, vamos chegar lá...

Há cerca de uns dois anos, li o livro Comunicação Não Violenta de Mashal B. Rosenberg. Achei-o interessante e fiz anotações sobre ele. Comentei com amigos próximos e pronto. Normalmente é isto que fazemos: lemos, comentamos e jogamos na gaveta do esquecimento. Ontem, sentada no jardim, depois de ler um livro de uma amiga, zapeando pelo YouTube, agora com mais frequência na mídia, descobri uma playlist sobre a comunicação não violenta. Bebericando a cerveja e deleitando-me com a paisagem, fui ouvindo a palestra da psicóloga Svitlana Samoylenko, que , segundo ela, aplica a andragogia nos seus cursos e atendimentos. 

Aquilo que há muito me incomodava, porque depois do ocorrido ficou sim o incomodo, apesar da justificativa; algo descortinou-se e percebi duas coisas importantes: Primeiro, a minha comunicação não foi direta, foi tóxica. Veio precedida de julgamentos e não de fatos. Projetei na colega, a minha aversão pelas presenças constantes na mídia. Não compreendi, que ela o faz, para dar prosseguimento aos seus projetos de acessibilidade. O seu fazer é dela! Descobri, que antes de conhecê-la, já havia feito meu julgamento negativo. Na minha humanidade imperfeita, não perdi a oportunidade de criticá-la. Que comportamento mesquinho! Reconheço e não me orgulho dele. Ainda bem que tenho o respaldo do Marlon Reikdal para continuar este meu "Vai para Dentro".

Como disse anteriormente, percebi duas coisas: Segundo, li o livro Comunicação Não Violenta, mas minhas reflexões sobre o assunto foram superficiais, não tiveram o propósito de um aprendizado. Como acredito não haver os acasos, o fato de ter me deparado com a playlist citada, é um convite  para rever minha maneira de me comunicar. Os quatro pilares da comunicação não violenta _ observar, sentir, precisar e pedir_ merecem ser destrinchados, examinados, exercitados e aprendidos. Treinando o que ouvi, quero retificar a minha comunicação tóxica dirigida à colega e, acima de tudo, pedir-lhe desculpas publicamente. Se pudesse voltar no tempo corrigiria e falaria desta forma:

__Observo que todas têm o desejo de  falar sobre as suas entidades e sinto o quanto isto é importante; contudo, devido ao tempo, teremos que ser breves nas nossas apresentações. Gostaria, que hoje, você observasse isso. Você pode ser mais concisa? (Você foi capaz de identificar os 4 pilares da comunicação não violenta?)

Neste processo de autoconhecimento, continuo mergulhando nas observções dos meus sentimentos, pensamentos e comportamentos e,  a cada ferramenta, ou acontecimento, que me chega, agradeço. Convido vocês a fazerem esta caminhada, nem sempre bonita; como vocês perceberam. Pelo contrário, descobrir quem realmente somos, pode nos trazer muitos constrangimentos. Embora, só o reconhecimento de quem somos aliado à vontade  é que nos permite a mudança. 

Reitero minhas desculpas à colega!