sábado, 9 de agosto de 2025

Entre águas calmas e batucadas de raiz: uma roda de samba na Holanda


                                                                                         Foto: Lúcia Boonstra

Fui parar numa roda de samba. Assim, sem planejamento. Convite de amiga, domingo ensolarado, coração meio vazio e agenda idem. Hesitei — eu, que mal decoro uma letra inteira, que confundo sambistas, que sempre acho que samba é para os iniciados, para quem tem no sangue o compasso e nos quadris a licença. Mas, faltando onde ir, fui.

O bar tinha pé direito alto e, do pequeno terraço, se via um dos canais de Amsterdam. O verão escorria preguiçoso pelas águas, e barcos deslizavam como se nem tocassem o tempo. Cheguei cedo demais — pontualidade que aprendi aqui, e que só causa estranheza quando comparada ao desencontro confortável dos encontros brasileiros.

Na mesa à frente, quatro adolescentes riam com aquele tipo de alegria que parece não precisar de motivo. Quase arrisquei um comentário, uma aproximação de língua materna — mas me contive. Entre querer conversar e parecer intrometida, preferi o silêncio e mais um gole de cerveja.

Foi então que notei um homem se aproximando deles. Conversavam sobre música, shows. Aí soube: dois deles eram netos de Martinho da Vila — Dandara e Raoni. Atrações principais da noite do Roots Samba Amsterdam. A surpresa me calou por uns segundos. A admiração falou mais alto.

Me atrevi.

— Posso roubar uns minutos e fazer três perguntinhas para um provável texto?

O sorriso largo de Dandara e a voz acolhedora de Raoni me deixaram entrar. Ali, no improviso da prosa, ouvi mais do que respostas — escutei o pulsar de uma juventude que respeita o passado sem abrir mão do próprio passo.

“É uma honra... representamos a terceira geração da família do samba”, disse Raoni. “Mas queremos seguir com a nossa cara, do nosso jeito.”

É nesse entrelaçar do que foi com o que se quer ser que mora a beleza da arte deles. Criados nos bastidores do samba, entre ensaios, palcos e blocos de Carnaval, os dois carregam no timbre e na postura uma naturalidade que vem de berço. Mas não se escoram apenas no sobrenome. Eles estudam, viajam, ministram aulas, experimentam.

O samba, para eles, é mais do que música: é modo de viver e de comunicar. “A espontaneidade do samba é muito nossa também”, completa Dandara. E quem os vê no palco percebe: não há nada forçado, nem nos gestos nem nos sorrisos. A alegria é legítima, a troca com o público, sincera.

A conversa seguiu com fluidez. Falaram das vivências internacionais, do calor de um festival em Portugal, da emoção de ouvir estrangeiros cantar seus sambas, do aprender com o modo holandês de sambar. “É uma troca constante, uma energia que recarrega a gente pra seguir firme lá no Brasil”, disseram.

Saí da roda de samba — sim, fiquei até o fim — cantarolando refrões que nem sabia que sabia. Descobri que talvez o samba estivesse em mim o tempo todo, guardado entre lembranças de festas de rua, batuques de escola, ou só o eco de um pandeiro distante em tardes esquecidas.

Mais do que isso: entendi ali que o samba é também um caminho de identidade. Que cada geração reinventa, mas sem perder o compasso dos ancestrais. Dandara e Raoni me mostraram isso sem didatismo — apenas sendo quem são. Talvez essa seja a maior lição: a de que respeitar a ancestralidade não é repetir o que foi feito, mas continuar a batida — com alma, com coragem e com swing próprio.

Na volta pra casa, pelas ruas estreitas da cidade, os barcos ainda balançavam no canal. A noite não tinha pressa, e eu também não. Senti que, enfim, compreendi o que era sentir o samba — e ele batia suave no meu peito, como quem agradece a visita.


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