Sinto que as demandas de fim de ano
estão me consumindo. Embora repita, quase como um mantra contemporâneo, o
discurso de priorizar o tempo, tenho a incômoda sensação de desperdiçá-lo. Ele
escorre pelas redes sociais, se dilui em devaneios improdutivos, acomoda-se no
prazer legítimo — mas excessivo — de maratonar uma série. O cansaço não vem
apenas do que faço, mas do que deixo de fazer com consciência.
Durante este recesso, que para mim
será mais prolongado do que o habitual, pretendo reler O
mercador de Veneza, de Shakespeare. Lembro-me com nitidez de
tê-la assistido ainda adolescente, no Grande Teatro Tupi,
da extinta Rede TV Tupi. A peça tinha como ator principal o talentoso Ednei
Geovenazzi. Causou-me um impacto profundo. Eu já era uma leitora voraz, mas
ainda não havia lido Shakespeare. Conhecia Romeu e Julieta
pelo nome, pelo mito, pelo eco cultural — não pela experiência da leitura. Ver O
mercador de Veneza foi, à época, um choque estético e ético:
algo ali me inquietou, embora não soubesse nomear exatamente o quê.
Hoje, percebo que caminhamos por uma
Veneza que já não tem canais, mas timelines; já não ostenta máscaras de
carnaval, mas discursos cuidadosamente maquiados. Ainda assim, o enredo é
antigo. Shakespeare, com a precisão dos grandes anatomistas da alma, sabia: o
tempo muda os figurinos, não os vícios.
Em O mercador de Veneza,
Shylock não é apenas um personagem; é um espelho desconfortável. Judeu,
estrangeiro, reduzido à caricatura por uma sociedade que precisa apontar um
culpado para preservar sua própria imagem de civilidade. Ele concentra em si o
ódio social legitimado, a exclusão travestida de norma. Hoje, basta trocar o
gueto pelo algoritmo, a praça pública pelo noticiário, e veremos a mesma
engrenagem funcionando com assustadora eficiência. O preconceito continua
circulando como moeda invisível, aceito em piadas, silêncios cúmplices e
indignações cuidadosamente seletivas.
O racismo — ainda que a peça o formule
sobretudo em termos religiosos e culturais — persiste como cláusula tácita do
contrato social. Na peça, ele se ancora na lei; em nosso tempo, na retórica da
“opinião”. O efeito permanece idêntico: desumanizar para justificar a exclusão.
Shylock pede justiça e recebe moralismo. Hoje, grupos inteiros pedem igualdade
e recebem conselhos sobre resiliência, paciência ou mérito. A violência
simbólica tornou-se mais polida, mas não menos eficaz.
E há a ambição — sempre ela — essa
fome que não se sacia, apenas se refina. Antônio arrisca tudo em nome do
comércio; nossos mercadores contemporâneos apostam futuros inteiros em mercados
abstratos, cifras voláteis, promessas de crescimento infinito. A libra de carne
já não é arrancada do corpo, mas do tempo, da saúde mental, da dignidade
cotidiana. O lucro segue sendo apresentado como virtude, mesmo quando cobra
juros em vidas.
Talvez o aspecto mais perturbador da
peça — e do presente — seja a falsa vitória da justiça. Pórcia triunfa no
tribunal, mas o faz humilhando, silenciando, forçando a conversão do outro. A
causa é ganha, mas o humano é perdido. Quantas vezes, hoje, celebramos decisões
“corretas” que preservam intactas as estruturas de exclusão? Quantas vitórias
morais servem apenas para reafirmar quem tem o direito de falar — e quem deve
calar?
A lição shakespeariana que resiste ao
tempo é incômoda: não há neutralidade possível em sociedades fundadas na
desigualdade. Sempre haverá um Shylock à margem, sempre haverá um tribunal
disposto a chamá-lo de vilão para não encarar o próprio reflexo.
Talvez seja por isso que reler
Shakespeare, neste recesso, me pareça menos um gesto de erudição e mais um
exercício de lucidez. Porque a pergunta que O
mercador de Veneza insiste em nos fazer — e que seguimos
adiando — permanece urgente: quando pedimos justiça, buscamos equidade ou
apenas vencer o processo? Se for apenas a vitória, continuaremos encenando a
mesma peça. Com novos cenários, o mesmo texto e um público perigosamente
habituado ao aplauso.
Você se arrisca a ler ou reler O
mercador de Veneza?